Xuxa: aprisionada pelo personagem

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Gosto de zapear pela televisão aos domingos. Nos canais fechados, existe um doping de futebol. Nas
emissoras abertas, reinam os programas de auditório e jornalísticos. E não
existiu assunto mais comentado do que o depoimento da apresentadora Xuxa
Meneghel sobre os atos de violência sexual que sofreu aos 13 anos. Nomeou os
autores e 24 horas depois anunciou no Twitter que não falaria mais do tema.

É lógico que o tema é delicado e ninguém ignora a brutalidade cometida então contra uma criança de 13
anos. Em conjuntura normal deveria ser punido exemplarmente. E o depoimento
poderia até servir de incentivo para o combate a pedofilia. Lógico, se a Rede
Globo estivesse com a intenção de fazer um trabalho sério, compenetrado e voltado
para a prestação de serviço. Infelizmente, não é o que parece. O mote principal
do depoimento foi a busca pela audiência. Chegaram lá. O trecho do “Fantástico”
com a apresentadora rendeu 24 pontos, recorde dos últimos tempos.

Mas sinceramente não é isso que me preocupa. O que me deixa intrigado é a incapacidade de Xuxa em sair
do personagem. Por mais que você assista ao depoimento você não consegue vislumbrar
a Maria da Graça Meneghel. Tudo parece parte de um roteiro, ora para chocar, em
outros para lamentar e outros instantes para se alegrar.

Repito: não duvido do ato e nem do sentimento da apresentadora. Nem poderia fazer tal atrocidade. O
que me incomoda é perceber como esse mundo das celebridades transforma as
pessoas em figuras pré-determinadas a cumprirem determinado papel. E mesmo
quando existe um fato bombástico a ser divulgado, tudo deve acontecer conforme
a previsão da plateia. Exemplo prático: se Xuxa fizesse tal revelação a um repórter
de jornal impresso, ocorreria o mesmo impacto? Não, principalmente porque as
pessoas esperam que Xuxa sempre se manifeste pela televisão. Uma espécie de Big
Brother consentido. Mais do que superar um trauma de infância estarrecedor, o
grande desafio de Xuxa é superar algo muito mais profundo e grave: deixar
aflorar a Maria Meneghel e deixar a Xuxa em segundo plano, como um personagem
de televisão. Reconheço, é difícil. Mas tem que tentar.

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Elias Aredes Junior é jornalista, radicado na cidade de Campinas, Estado de São Paulo. Trabalha como repórter esportivo para o Jornal Todo Dia de Americana e também como comentarista esportivo para a Radio Central AM de Campinas, 870 KHz. Diariamente participa dos comentários na programação esportiva entre as 18:00 e 20:00, além de comentar jogos de futebol nas transmissões ao vivo da emissora. Aqui ele fala sobre tudo, futebol, esporte, política, religião, entretenimento, cultura, culinária, tudo isso sempre com seu olhar crítico e independente.

2 COMMENTS

  1. De fato, qual teria sido o pretexto para tal depoimento? Assim, do nada, ela resolveu abrir seu coração “sofrido” e fraterno em prol das causas sociais, a ponto de “usar” suas próprias desgraças para o bem comum? Difícil acreditar. Como alardeado pela emissora, foi o depoimento da Xuxa. Uma personagem que explorou e explora “magnificamente” a boa fé da audiencia. Lamentável… deplorávelmente triste.

  2. Não sei se Xuxa fez esse depoimento atrás de holofotes. Acho que ela se sentiu segura para falar sobre isso. O problema não é ela nesse caso, mas sim a TV Globo que preferiu fazer sensacionalismo em torno disso.

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