Uma MP para mudar o futebol. E a vida em sociedade…

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Conta a história que o fato foi assim. Ano passado, a presidenta Dilma Roussef pediu um encontro com os principais cronistas (jornalistas) de esporte do País. E quis saber deles a real situação do futebol brasileiro. A resposta foi um balde de água fria no ego de qualquer brasileiro que, como manda a regra, se declare apaixonado pela modalidade.

Nós, em geral, adoramos propagar por aí o fato de sermos o “País do Futebol”. Mas, sejamos sinceros, a fama só vale no discurso. Nos gramados, na vida real, o cenário do futebol brasileiro é bem triste. Os clubes estão endividados e falidos. A maioria dos atletas acostumou-se a não receber salários (ou a tê-los sempre atrasados). Os Estádios são igualmente deprimentes e até o torcedor está, vamos concordar, meio perdido quanto a seu papel neste espetáculo, hoje, trágico.

Justamente para tentar reverter esse cenário é que Dilma Rousseff, orientada pelos integrantes do Bom Senso FC, seus assessores e, especialmente, o jornalista Juca Kfouri lançou em março deste ano a Medida Provisória nº 671/2015 (chamada MP do Futebol).

Trata-se de uma espécie de “pacotão” com itens que os clubes terão de cumprir para “modernizar e melhorar sua relação econômica”. O ponto de partida é a chance dada pelo Governo para que os times refinanciem suas dívidas com a União, tendo até 240 meses para pagar suas contas. Dados da Casa Civil estimam que o débito dos 103 clubes gire em torno de R$ 3,8 bilhões.

Ao mesmo tempo serão exigidas iniciativas de modernização da gestão, incluindo questões como o pagamento em dia de salários e direitos de imagem para os jogadores. O não cumprimento dos itens prevê punições rigorosas que vão até o rebaixamento e proibição de participação em campeonatos. As medidas valem não apenas para times de futebol, mas todas as entidades desportivas profissionais.

A proposta da Presidência é sólida e baseada em princípios de honestidade, transparência e comprometimento. Acho bem justa e promissora. Mas penso aqui qual é a opinião da maioria dos torcedores brasileiros? Questiono porque, nesse “mundo do futebol”, existe uma cultura nem um pouco legal de que “os fins justificam os meios”. Em outras palavras, o que trouxe o futebol ao atual cenário é a prática (aceitada) de se colocar “limites” morais. OU seja, “pode-se tudo” desde que, ao final do ano, o time seja campeão.

Não importa não cumprir contratos de trabalho, não importa “comprar” o juiz, mandar “mala preta” para o adversário perder, sonegar impostos, ou quaisquer outras condutas corruptas. O torcedor, cego de paixão, só não quer que seu time seja rebaixado, por exemplo.

Curioso é que esse mesmo torcedor quer promover panelaços e pedir ordem e progresso no Governo. Esse mesmo torcedor quer cobrar responsabilidade de tudo e a todos. Quer cobrar que seu vizinho não traia a esposa. Ou que sua colega de trabalho não seja “mulher fácil”. Entendem?

Acho que a MP do Futebol é, mais do que um proposta para os clubes, um convite para repensarmos à sociedade e, especialmente, o comportamento do torcedor brasileiro que, em geral, se coloca no papel de “vítima” – aquele que tem paixão e sofre pela instituição, mas nada pode fazer. A MP propõe, ao contrário disso, que esse torcedor assuma o palco, cobrando de seus dirigentes com consciência, transparência e responsabilidade. (artigo escrito pela jornalista Adriana Giachini)

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