Uma história (improvável) de Natal

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– Pegue suas coisas e vá embora. Está demitida!

Margarete perdeu o chão. Estava desempregada na véspera de natal. Edson, seu patrão, não perdoou o fato dela ter quebrado um jogo de copos de cristal em uma recepção para amigos no dia anterior. Não faltaram aliados para evitar a injustiça.

– Eu não aceito! Ela trabalha conosco há 15 anos – disse a patroa Elisandra.

– Trabalha porque fazem caridade com meu dinheiro. Não é a primeira vez que ela arrebenta com minha credibilidade perante convidados. Lembra quando a bandeja de canapés caiu sobre o desembargador? E o vinho derramado na camisa branca do prefeito? Chega! Quero passar meu natal em paz!

Alto, loiro, rosto quadrado e sem espaços a gracejos, Edson vestia-se com roupas sociais de altíssimo padrão, tudo para corresponder a imagem de proprietário de uma cadeia de  47 supermercados…Tinha dinheiro, status, poder. “Patrimônios” que eram condizentes com seus milhões de dólares ou reais. Seu perfil se contrastava com a da ex-empregada, a típica nordestina disposta a vencer em São Paulo. Baixa, magra, cabelo liso, preto, rosto redondo, lábios finos, pernas grossas e arqueadas e uma timidez insistente em lhe esconder o sorriso, especialmente nas situações adversas:

-Chega de conversa fiada. Pegue suas coisas e vá embora…

Após discussões, bate bocas e atos de autoritarismo, Edson fez sua vontade prevalecer. Margarete dirigiu-se ao quarto que morou por 15 anos. Desembarcou ali como adolescente e agora não tinha destino certo. Não sabia onde iria morar e trabalhar.

Era sozinha, não tinha parentes em São Paulo e ganhava dois salários mínimos. Metade do dinheiro enviava a mãe em Jequié (BA).

O quadro desesperador não lhe deixou alternativa. Margarete chorou como nunca. Dentro de si, sua alma clamava por uma saída, uma brecha para voltar a ter uma vida digna. Curvada, sentada na cama, sentiu uma mão lhe afagar. Era Tatiana, a filha do agora ex-patrão.

– Eu não me conformo…Você é como uma segunda mãe para mim…Isso não pode acontecer, eu não aceito – declarou a adolescente com os olhos marejados, tristes, perdidos no cubículo usado como quarto.

– Filha, a vida é assim…Datas especiais não geram amor de modo espontâneo. É preciso querer. Seu pai não quer – resignou-se Margarete.

Demorou duas horas para arrumar seus pertences. Uma dúzia de peça de roupas, um jogo de cama e uma mochila surrada em que não existiam presentes. Margarete contemplou o que havia arrumado, pensou nos anos vividos ali, nas alegrias, tristezas, broncas, desacertos e dramas vividos naquela casa de classe alta da capital paulista.

– Por favor, vamos encurtar isso. Toma o dinheiro para o táxi e para você se virar por uns dias – bradou o empresário em novo ataque de grosseria ao entrar no quarto…

Margarete ultrapassou o portão da mansão e caminhou sem destino. Refletiu, pegou o telefone público e ligou para sua amiga Beatriz. Também era empregada doméstica, atuava na casa do lado, no bairro do Morumbi. Loira, baixa, rosto redondo, lábios retraídos, adepta de roupas espalhafatosas, era comunicativa e expansiva. Fez amizade com Margarete quando cada uma colocava na rua o lixo da residência em que trabalhavam.

– Amiga, por favor…Fui demitida, não sei o que fazer…

– Poxa, mas na véspera de natal…Esse doutor Edson é corno mesmo…Pega um táxi e vem para cá…Sempre tem espaço para mais um na ceia…E você fica aqui em casa até arranjar um emprego…

Não era um ato qualquer. Beatriz, moradora em Artur Alvim, zona leste da capital, tentou encontrar um modo de acomodar a amiga ao lado dos três filhos Jefferson, Jeraldo (isso, com J!) e Jeremias. Todos adolescentes, mas que já conheciam Margarete.

A ceia estava pronta quando Margarete apareceu com a mochila e a mala nas mãos. Não havia luxo ou desperdício na mesa. O cardápio era simples: Frango assado, arroz a grega, maionese e duas garrafas pets de dois litros de refrigerantes de segunda mão.

A oração do pai nosso, a leitura de um trecho bíblico (Beatriz gosta do livro de Lucas, nome de seu finado pai) e todos na montagem dos pratos exibia uma normalidade de uma noite de natal. Faltavam dez minutos para meia noite. Foi quando o telefone celular de Beatriz tocou.

– Ah deve ser o miserável do meu ex-marido…Quer mostrar mudança de comportamento. Não caio na dele não – disse Beatriz, visivelmente aliviada pela silêncio repentino.

Ledo engano. O telefone tocou novamente. O barulho parecia alto, insistente.

– Mãe, esse não é o número do pai. E é fixo- disse com ar de desconfiança Jeremias.

– Perae, vou ver quem é – disse a dona da casa.

Ao pegar o telefone, Beatriz teve sufocado o seu alo. Do outro lado, a adolescente Tatiana. Desesperada, aflita e determinada a falar sem parar:

– Oi, Beatriz? Eu sei, tenho certeza, a Margarete está ae. Não adianta mentir, me enganar. Peguei seu telefone com a vizinha. Eu preciso falar com ela. Não me deixe sem esperança na noite de natal…É grave, por favor…

Tatiana desabou em um choro convulsivo, vindo da alma. Ao perceber a mudança de interlocutor na linha, a menina loira, meiga, sempre com calças, camisas e tênis da moda, respirou fundo e disparou:

– Margarete, escute por um instante. Papai foi sair de carro para buscar uma encomenda, entrou na Avenida Paulista, não prestou atenção no cruzamento e um ônibus pegou em cheio o carro dele. A gente tá aqui no hospital. O estado dele é grave.

Recém-demitida, destruída emocionalmente, desamparada financeiramente, Margarete ficou perdida. Queria entender como ela poderia participar daquele drama inesperado.

– Tati, te adoro como se fosse minha filha. Mas desta vez não entendi. O seu pai me trata como uma indigente, me expulsa da casa de vocês e agora quer que eu preste solidariedade?. Você acha que fiquei louca? – esbravejou uma indignada Margarete, já sem paciência para prolongar a ligação.

– Escuta, escuta. Ele perdeu muito sangue. Corre risco de vida

– Ok, é muito triste, sinto muito por vocês. Mas e daí?

– Você lembra quando fez exame para trabalhar em casa? Todo mundo acha isso uma bobagem, mas papai sempre fez questão. E quando você foi contratada, ele me disse que chamou atenção no seu exame o seu tipo de sangue, que era O negativo, o mesmo dele e muito raro. O banco de sangue do hospital não tem. Por favor…- disse Tatiana, novamente em prantos.

Margarete ouviu, despediu-se, desligou o telefone e embalou um silencio profundo. Tinha poucos minutos para definir entre a vida e a morte daquele que há poucas horas era seu algoz.

Poderia ignorar o apelo, seguir em frente com a ceia e aguardar a notícia da partida daquele que lhe maltratou por anos e anos.

De repente, um estalo.

– Bia, seu celular tem crédito? Preciso fazer uma ligação

– Ô louco, vai ligar para quem a essa hora? É meia noite e vinte…

– Depois te explico…Vai, me passa o fone…

Reticente, sem entender o que acontecia, Beatriz, ou Bia para os íntimos, passou o aparelho e viu a melhor amiga pedir um táxi, que surgiu em frente da casa humilde em Artur Alvim em 40 minutos.

Rápido, ligeiro e sem obstáculos na frente, o veiculo em 20 minutos fez o trajeto até o hospital.

Margarete procurou a atendente, realizou a doação de sangue e ao sair do procedimento, encontrou Tatiana.

– Você veio…Meu Deus… Meu Deus – disse a menina com as mãos junto ao peito e com o corpo curvado como em sinal de agradecimento.

– Filha, não fique assim, o pior já passou…

Ao ver o dialogo, o médico responsável pelo caso do empresário Edson corroborou com a tese da empregada:

– Já temos sangue suficiente e iniciamos o tratamento. O quadro já melhorou…

Margarete poderia ir embora. Voltar e curtir o restante da noite de natal com os amigos. Foi quando uma atitude pegou Tatiana e sua mãe Elisandra no contrapé:

– Quero ficar do lado dele até acordar – pediu Margarete.

Fina, elegante, de frases pausadas e roupas impecáveis, Elisandra recusou. Mudou de ideia ao condicionar que também estivesse presente no quarto.

– Vou deixar você ficar em respeito a nossa história – disse Elisandra.

Eram duas horas da manhã. Mãe, Filha e a ex-empregada ao lado da cama em que Edson ainda dormia sob o efeito de sedativos.

Quatro horas depois, quando o sol raiou, Edson abriu o olho e teve diante de si a imagem surpreendente:

– Seu Edson…Feliz Natal! Deus te abençoe – disse a ex-empregada, sua heroína improvável.

Margarete saiu do quarto e foi embora sem destino, mas feliz. Tinha recebido o melhor presente de sua vida: o exercício prático e pleno do amor.

 

 

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