Teoria, prática e análise global sobre o drama do aborto. Quem tem?

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Sensibilidade pelo próximo é um sentimento que não existe meio termo. Ou você tem ou não tem. Seja qual for o episódio ou acontecimento.Pegue a questão do aborto. As redes sociais foram invadidas por uma onda de mulheres que postam fotos suas grávidas e com depoimentos contra o ato do aborto e como valeu a pena conduzir um processo de gravidez. Muito legal, positivo e louvável. Até porque o jornalista e blogueiro de plantão também é contra o aborto. Mas a vida real é complexa, diferente, apronta surpresas e devemos estar preparados para tudo.

Notícia publicada neste sábado pela Folha de São Paulo é uma amostra. Após socorrer uma jovem em São Bernardo do Campo, um médico chamou a polícia para a própria paciente que tentou abortar uma gravidez de quatro meses. A menina  tomou quatro comprimidos de Cytotec, um dos preferidos para tais procedimentos. Foi pega em flagrante, pagou fiança de R$ 1 mil e agora está sujeita a penas alternativas. O delegado que cuida do caso admite que a garota ficará marcada pelo resto da vida. Observação: o Conselho Regional de Medicina estuda abrir processo contra o médico, que não deveria cometer tal ato, que infrige o código de ética da profissão.

Em todo esse imbróglio, algo fica explicito e não é admitido: o valor da mulher no Brasil é diminuto, quase zero. Pare e pense no trauma emocional a ser desenvolvido por ela após passar por um ato de violência para seu corpo e dignidade. Pense na vergonha e nos olhares que ela será vitima a partir de agora que seu ato foi exposto em público. Imagine que ela tomou essa decisão desesperada porque simplesmente não encontrou apoio de ninguém, nem mesmo do homem que seria o pai da futura criança. Aliás, um adendo: o homem nunca é colocado como cúmplice de um ato de aborto. Deveria. Não pela ação, mas pela omissão de não conceder apoio a companheira em hora tão delicada. Sintomas de uma sociedade machista…

Aposto que a garota por si só é radicalmente contra o aborto. Não queria sacrificar uma criança concebida em um ato de amor. Mas e a família, amigos, conhecidos e o próprio Estado brasileiro, será que deram o apoio necessário para que ela levasse a gravidez até o final?  Se ela fosse rica, milionária, será que cometeria o ato com quatro comprimidos ou se internaria em uma clinica de luxo com todos os cuidados necessários?

A legislação e os dogmas morais apontam o dedo para a garota de São Bernardo e decretam sua culpa. No fundo, no fundo, ela paga uma pena que é de toda a sociedade. Ser contra o aborto é natural, mas é  preciso conceder apoio para que tal atitude diminua  e que caso aconteça, a dignidade e a compreensão seja a característica principal no tratamento pessoal com as mulheres. Pena, neste requisito estamos em débito.

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