Sobre Renato Cajá e o caos do futebol brasileiro

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Renato Cajá é o principal jogador da Ponte Preta e do Campeonato Brasileiro. Ninguém exibe o futebol de qualidade do meia armador. Autor de gols belissimos, o atleta virou o tema do momento na crônica esportiva. Seria natural gerar interesse em clubes com grande orçamento e que se encontram em péssima situação na tabela de classificação. Um campeonato, aliás, liderado pelo Atlético-PR e com a Ponte Preta na vice-liderança. Pontuações que refletem trabalhos bem organizados executados por Guto Ferreira e Milton Mendes e a incompetência de quem administra milhões.

Seria ingenuidade pensar em paralisia dos gigantes diante do quadro dramático. Automaticamente, Cajá pode ter virado o redentor dos sonhos de muitos dirigentes. Pode não corresponder a verdade, mas vender ilusões é uma praxe no futebol. Algumas verdades devem colocadas na mesa.

1- A questão financeira pesa neste duelo para manter Cajá no Majestoso. A Ponte Preta disputa a divisão de elite com R$ 14 milhões para gastar até o final do ano. Tem uma folha de pagamento de R$ 1,3 milhão e isto inclui os encargos trabalhistas. Enquanto isso, o Sport (PE), que deveria receber o mesmo tratamento da Macaca leva R$ 27 milhões e tem folha de pagamento de R$ 3 milhões para o futebol. O Corinthians, por sua vez, destina R$ 10 milhões todos os meses para os jogadores e comissão técnica e ganha R$ 110 milhões da Rede Globo, assim como o Flamengo. Pergunta: como combater nesta arena? Convenhamos: se surgir um interesse para valer sobre Cajá não será fácil a Ponte Preta fazer uma contra oferta. Não porque ela queira tal situação. Isto lhe foi imposta. Queiramos ou não. Enquanto a disparidade das cotas de televisão permanecer na divisão de elite, os times médios, caso da Ponte Preta, continuarão a sofrer. Se não for por causa da regra de transferencia para times da mesma divisão será logo após o final do estadual. Bom lembrar: Renato Cajá jogava em alto nível desde o Paulistão.

2- Renato Cajá é jogador de futebol profissional. Sobrevive disso. Vive disso. Tem uma carreira curta. Tem, no máximo, 10 anos de vida para juntar dinheiro no futebol. Fazer o seu pé-de-meia. Esse é o ponto delicado. O torcedor pensa no imediato, no salário que é pago ao atleta. Este, por sua vez, pensa naquele rendimento não para lhe sustentar por 30 dias e sim para lhe garantir uma poupança para o resto da vida. Que em alguns casos possa viver de renda e sustentar filhos, esposa e gerações subsequentes. Essa é a conta feita. Se aparece uma proposta que lhe dê esta perspectiva, o clube no qual tem vínculo tem apenas uma saída: oferecer um salário maior. Isso não é ser mercenário. É pensar no futuro. Garrincha deixou o amor pelo Botafogo falar mais alto e assinou contratos em brancos. Morreu na miséria. Não quero aqui defender Cajá. Até porque sua entrevista foi infeliz e suas declarações ocorreram em hora imprópria. No entanto, pense por um instante com a cabeça dele. É fácil ignorar uma proposta que possa reforçar o colchão de sua aposentadoria? E para terminar este tópico, uma dura realidade: nenhum jogador de futebol tem amor profundo ao clube que defende. Pode ter carinho, respeito. Agora, paixão incondicional…Esquece!

3- Paixão presente no torcedor da Ponte Preta. Que está machucado e decepcionado com toda essa história. Pensou que ficaria no passado as saídas repentinas de jogadores ou a perda de peças vitais. Renato Cajá e sua malfadada entrevista deixou a impressão que o fantasma está mais vivo do que nunca. Ao invés de reclamar e pressionar o jogador, porque não tomar atitudes práticas? Em primeiro lugar, a saída é fortalecer o caíxa do clube com uma adesão maior ao programa de Sócio Torcedor. Guardada as devidas proporções, veja o caso do Palmeiras, que arrecada R$ 20 milhões com o seu programa. Pense por um instante: será que a Macaca não seria capaz de alcançar 30 mil sócios torcedores? Em uma conta simples, se todos pagassem o pacote minimo, o valor seria de R$ 300 mil mensais. Não seria um poder de fogo a mais para segurar jogadores do porte de Cajá? Sim.O que faz a torcida da Ponte Preta desprezar esta arma tão poderosa. Não sei.

A torcida da Ponte Preta também deveria adotar uma postura cidadã. As medidas previstas na MP do Futebol, se forem implementadas, vão amarrar os clubes em relação a aventuras financeiras desmedidas. O teto de 70% com gastos no futebol fará que os cartolas pensem duas vezes antes de gastar dinheiro fora do orçamento previsto, como contratar com o campeonato em andamento. Detallhe: e você sabia que esses cartolas, que atacam clubes médios e suas estrelas são aqueles que desejam manter tudo do jeito que está? Não está na hora de ligar pro seu deputado ou senador e exigir que o cerco sobre os cartolas (e os gigantes) seja maior? Indiretamente, você contribuirá para diminuição dos métodos lamentavéis reinantes do futebol brasileiro.

Resumo da ópera: Renato Cajá é apenas uma peça deste intrincado jogo de tabuleiro chamado futebol brasileiro.

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