Seja sincero: você só fala ou entende de política?

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Delcídio Amaral teria prestado um depoimento por intermédio da instituição da delação premiada e incriminou Lula e Dilma. O documento vaza para a imprensa e no dia seguinte o ex-presidente é conduzido de modo coercitivo para um depoimento no Aeroporto de Congonhas para cumprir um mandado do juiz paranaense Sérgio Moro. Reações de parte a parte são detonadas e Lula dá declarações contundentes a respeito do episódio. Em menos de 48 horas, uma diferença fica estabelecida: falar de política, todos falam; entender de política e de seus desdobramentos, poucos podem desfilar tais características.

FALAR de política é fácil. Basta pegar uma meia dúzia de frases clichês, utilizar o twitter, Facebook, Instagram, repartir com seus amigos e ver o seu ego massageado porque você colaborou para o massacre contra um ex-presidente da República ou você está na defesa do mesmo, mas sem nenhuma consistência.

ENTENDER de política é mais complexo. Demanda estudo, cruzamento de informações, capacidade de análise e comparação com o passado e o presente. Ter dados e fatos de cabeça são fundamentais para não dizer desatinos e colaborar, mesmo que de maneira tímida, para o esclarecimento da opinião pública. Na humilde opinião deste colunista e jornalista e que está em constante aprendizado, alguns requisitos são essenciais para escrever e falar sobre o tema de modo correto. A saber:

–Partido dos Trabalhadores: Humilhar e trucidar o PT pelos seus erros do passado e do presente é fácil. Agora, você tem em mente que é o partido é fruto de um processo histórico? Em 1975, o general Golbery do Couto e Silva, condutor da abertura lenta e gradual tinha um objetivo em mente: impedir que Leonel Brizola, herdeiro direto do trabalhismo de Vargas assumisse o poder. Para isso, tomou uma série de medidas.

Em primeiro lugar, fez o pacote de abril, em 1977, que tirou proporcionalmente deputados das regiões Sul e Sudeste, local em que Brizola tinha influência e inflou as bancadas do norte e do nordeste, a época entregue ao coronelismo mais rasteiro. A seguir, não reprimiu com força total as greves que ocorriam no ABC liderados por um jovem de 30 anos chamado Luiz Inácio da Silva, o Lula. Golbery sabia que aquilo poderia desembocar na criação de um partido político de esquerda, o que inevitavelmente racharia o trabalhismo.

Não deu outra: após sua criação em 1980, o PT atraiu sindicalistas, intelectuais e religiosos progresssistas. Foi ganhando espaço, prefeitura e o líder sindical de 1975 transformou-se em lider político competitivo. Nas eleições de 1989, o plano de Golbery deu resultado: na passagem do primeiro para o segundo turno, a diferença de Lula foi minima para Brizola, o terceiro colocado. Lula teve 11.622673 votos enquanto que o gaúcho teve 11.168.228 votos. Uma diferença de 454.445. A esquerda estava rachada.

Com o passar dos anos, Lula e o núcleo duro do PT perceberam a necessidade de transformar o PT em partido voltado mais a social democracia do que para uma esquerda pura e socialista. Os movimentos, capitaneados por José Dirceu foram claros: expurgo dos radicais, alianças ao centro e até a direita e começo de relacionamento com empreiteiras e empresas para financiar campanhas políticas, um erro que tempos tempos denunciou-se fatal, até por deixar em segundo plano a arrecadação coletiva por intermédio de eventos e que notabilizou o PT em seus anos iniciais.

Vem o primeiro mandato de Lula e ele perde por incriminação de corrupção os seus principais auxiliares, alguns por motivo de saúde (Luiz Gushiken, falecido) e outros por denúncias de corrupção (José Dirceu e Antonio Palocci). O que restou? Apostar em Dilma Roussef, uma militante burocrata nos aparelhos de guerrilha da ditadura e que com a redemocratização transformou-se em fiel seguidora de Leonel Brizola e convertida em petista quando integra o governo de Olívio Dutra (1999-2002), em que ocupa a pasta de Minas e Energia. Dilma mostrava uma energia incansável para o trabalho. Não tinha afinidade com o programa do PT, com o modo petista de ser e conviver em comunidade. Mas trabalhava e dava resultados, o que encantou Lula que usou seu capital político para transformá-la em presidenta. Depois disso tudo, eu pergunto: tem certeza que você conhece o que é o Partido dos Trabalhadores? Não, desculpe, mas com todo o respeito do mundo, você só fala sobre o PT, mas não entende nada de PT e nem de história. E posa de catedrático.

Oposição– Desde a ascensão de Vargas ao poder por intermédio de um golpe de estado, em 1930, uma característica é marcante nos grupos oposicionistas conservadores: a ausência de propostas para convencer os trabalhadores a trocarem um projeto trabalhista. Focam suas atenções no aspecto moral, na corrupção. Que é importante, essencial, vital. Mas não é tudo.

Vejamos: a partir da década de 1940, o Brasil passou a contar como líder político oposicionista Carlos Lacerda. Que não dizia um “A” sobre Desigualdade de Renda ou sobre a proliferação da pobreza e não mostrava nada alternativo para combater os índices baixos de educação, mas tinha fôlego para falar dia e noite, noite e dia que o Brasil vivia um “mar de lama” sob Vargas.

Para propagar tal teoria, passou a contar a partir da década de 1950 com o microfone da Rádio Globo, pertencente a Roberto Marinho. Com o suícidio de Vargas para não ser morto pela população ensandecida, precisou-se alojar-se na embaixada norte-americana. Não desistiu. Tempos depois, conspirou para derrubar JK e João Goulart. Foi um bom governador do Estado da Guanabara, mas a história lhe cobrou a fatura: ficou marcado com a pecha de golpista e conspirador.

Eis que anos se passam e hoje temos em Aécio Neves, Geraldo Alkmin, José Serra as mesmas características, em maior ou menor: o discurso moralista voltado a classe média, o desprezo ao combate a desigualdade de renda e a falta de discurso para se contrapor a um método de governo que se hoje é inegável que está dando errado, também é verdade que por 10, 11 anos teve uma eficácia tremenda para tirar muitos da míséria.Pior: nos últimos anos, até a defesa ao mercado foi abandonada por estes políticos. Motivo: as privatizações, se por um lado, transformou empresas em exemplos de eficiência também gerou um desemprego brutal e isso tira votos. Virou tema maldito. Pergunta: você tem noção destas conjecturas? Consegue cruzar as informações? Veja então se você fala ou entende de política.

Imprensa: Fico pasmo ao perceber que até colegas de profissão (muitos, vários) esquecem das relações umbilicais que a imprensa tem com o poder estabelecido. Sempre dependeu de verbas oficiais para viabilizar seus planos de expansão. Chatô montou uma cadeia de rádios e jornais sempre focado em estabelecer uma relação de facilidades e chantagens com o poder. Amou, odiou e colheu dividendos da sua relação com Getúlio Vargas. Adolpho Bloch só transformou a Manchete em revista relevante graças aos anúncios governamentais e a proximidade que teve com JK.

Samuel Wainer é o responsável por viabilizar o Ùltima Hora, que no início de 1950 revolucionou a imprensa brasileira. Sem o financiamento dos bancos estatais e a proximidade com Getúlio Vargas, que até lhe passava sugestões de pauta, isso nunca teria acontecido.

O que dizer então de Roberto Marinho, que após ver fracassar o financiamento com o grupo Time-Life dependeu da ditadura militar para bancar seus planos de expansão da Rede Globo de Televisão? Desculpe ser sincero, mas se você sabe de todos desses dados e considera que a imprensa não tem interesses envolvidos e é ingenua, você é ingênuo. Se você não sabe, deveria saber antes de abrir a boca para falar qualquer opinião que seja sobre política.

Poderia citar outros pontos. Fico nestes três. São suficientes para chegar a seguinte conclusão: analisar, discutir, ponderar e refletir sobre política, seja aqui no Brasil ou nos EUA ou em qualquer parte do mundo é preciso informação e capacidade de reflexão e não ideias artificiais e o ódio na ponta da língua. Isso poucos tem. Infelizmente.

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