Quando o preconceito racial ganha forma e rosto…

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Determinados fatos você precisa sentir na pele para dimensionar as consequências e vislumbrar aquilo que se encontra ao seu redor. Em qualquer bate papo com amigos, já me encontrei com pessoas resistentes em admitir que exista um preconceito de raça e de classe social no Brasil. Alguns chegam a pensar que é delírio e exagero. Que não precisamos de cotas, politicas de reparação ou ações afirmativas. O “mercado” ou os “políticos, dentro de sua bondade infinita, se encarregariam de apagar as mazelas. Quanta inocência. Uma inocência que fica ainda mais latente ao recordar dois episódios de minha vida, ocorridos por volta de 2006.

O primeiro aconteceu na igreja que frequentava. Já tinha carro na ocasião, um trabalho regular e todos os domingos parava meu veiculo em um estacionamento localizado ao lado do templo. Funcionários e proprietários educados e um serviço de primeira. Quem me conhece sabe que não tenho lá muita atenção para meu modo de vestir (sim, eu sei, deveria. Melhorou, mas ainda não dou bola). Mas naquele domingo específico eu estava como manda o figurino. Ou seja, com calça jeans novinha em folha, camisa branca, jaqueta de couro e sapatênis novinho. Para completar, cabelo e barba feita. Tudo dentro dos conformes.

Ao final do culto, após rápida conversa com amigos, me dirigi ao estacionamento. Os funcionários já me conheciam (era mensalista) e imediatamente procuraram meu veiculo para entregar. Ato contínuo, uma senhora fica ao lado. Não liguei e nem importei pois não era conhecida. De repente, ele estica o seu braço e tem uma chave de carro na mão. Olha fixamente para mim e sem pensar disparou:

– Por favor, pega para mim o Audi A-3 placa final …

– Desculpe, a senhora está enganada eu também sou mensalista.

Envergonhada, pediu desculpas, mas foi ao lado de outro rapaz negro, mais ou menos vestido como eu e fez a mesma pergunta. Claro, obteve a mesma resposta. Enquanto isso, foi inevitável pensar: “É, para alguns, quando negro está bem vestido é para fazer algum serviço para ele, seja o que for”.

Coincidência ou não, meses depois, eu tinha trocado de veiculo. Estava com um Escort. Após participar de um programa de rádio, eu e meu amigo, o jornalista Maurício Camargo entramos no veículos e tomamos o rumo de nossas casas. Eu, no caso, para dar carona para ele. Dois negros.

Ao passar na Avenida Francisco Glicério, a principal da cidade, uma batida policial. Um grupo de cinco policiais pede para que eu estacionasse o carro. Ficaram ao redor e quietos, a espera de uma palavra minha e do Maurício. Como não dizíamos nada, o comandante fez uma série de perguntas, pediu documentos e ao verificar que não havia que desabonasse não teve dúvidas em dizer:

– Pula fora daqui que tenho mais o que fazer!

Depois destes dois episódios, tomei duas atitudes: se não for provocado não discutirei sobre questão racial porque é um tema que provoca divisões. Mas por lado sempre sou solidário a qualquer vitima de tal atitude deplorável. Afinal de contas, mesmo que por pouco tempo, eu senti na pele. Não dá para esquecer.

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