Quando o jornalismo político imita o futebol

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Amadeu sofria. Executivo de uma emissora privada de televisão, ignorava a Copa do Mundo. Os índices de audiência eram satisfatórios, seu locutor titular era querido e os comentaristas escolhidos bombavam na internet. Nada disso lhe animava. Seus olhos e mente se encontravam nas eleições. Alto, moreno, óculos fundo de garrafa que contrastava com o rosto fino e o nariz avantajado era o clássico hypie paulista. Só pensava em dinheiro. Só queria dinheiro. Já tinha abarrotado os cofres na Copa do Mundo. Era pouco. Queria mais.

Sabia a dimensão do desafio na cobertura das eleições. Eleição presidencial quer dizer debate, reportagens, denúncias…Algum lado reclamaria, seja do governo ou oposição. Queria uma ideia inovadora, moderna, impactante para abalar as estruturas do jornalismo político.

As ideias aparecem quando menos se espera. Ao assistir a programação noturna com as mesas redondas esportivas teve um estalo. Bateu o desespero. Queria compartilhar a ideia imediatamente. E colocar em prática. Chamou Edgar, seu braço direito há 20 anos. Baixinho, troncudo, sempre vestido com camisa social, suspensório e gravata borboleta, era um refinado assumido. Não sabia o gosto do povão nas paradas de sucesso, mas perdia horas e horas em discussões sobre quem foi o melhor cantor de jazz da história. Ou baixava na internet filmes dos anos 1930 e 1940. Tinha 70 anos. Idade avançada e arriscada para sair correndo pelos 10 andares da sede da emissora.

Chegou esbaforido. E curioso. Amadeu não ligou para o suor impregnado na face do fiel escudeiro. Falava sem parar:

– Edgar, encontrei o novelo de ouro para nos diferenciarmos nas eleições! – anunciou Amadeu, exultante.

– Pois então diga..- rebateu

– Estava vendo a nossa mesa redonda cheia de ex-jogadores. Até o apresentador é um craque renomado. Fiquei pensando…E se fizéssemos durante as eleições uma mesa redonda só com políticos? Isso, só políticos…Todos os dias análise das pesquisas, noticias de bastidores…Nada de jornalistas fiscalizadores e inquisidores…Só quem já teve voto…

Edgar ficou pensativo, intrigado. Pensou, repensou e contestou o chefe:

– Mas…a nossa marca é do jornalismo investigativo, o encaminhamento de denúncias, de cobranças aos políticos de todos os partidos…

Amadeu nem respirou e disparou em contra-ataque:

– Bobagem! O povo não quer saber disso…Balela…Veja esses caras na telinha…Estão falando de futebol há duas horas e nem citaram Ricardo Teixeira, Eurico Miranda, José Maria Marin…Só histórias, analises táticas frias e enroladas. E o twitter, Facebook explodem em audiência. Meu caro Edgar, o povo quer isso…Diversão, entretenimento…Só nós levamos o jornalismo a sério…

Antes de novo argumento contra a ideia maluca, Amadeu continuou seu monólogo…

– Pense Edgar…Que maravilha…Uma mesa redonda com política contando histórias de bastidores das falcatruas, jogadas no parlamento, revelando quem agencia garotas de programa para cabalar votos no parlamento…Seria um estouro!

Em um instante de respiro, Edgar encaixou a pergunta:

– Tá, mas se chegar uma denúncia feia, cabeluda de corrupção contra um dos participantes da mesa…O que vamos fazer?

Amadeu não se intimidou:

– Há há há há…Edgar como você é ingênuo. Se chegar alguma denúncia, o político faz como esses ex-jogadores de futebol rebeldes ou chinelinhos que hoje são comentaristas: Ah, eu posso explicar porque eu estava lá…Edgar, pense, é a nossa chance. Tenho até a lista dos possíveis convidados, veja…

Ao pegar o papel, Edgar ficou estarrecido. O mediador seria um ex-governante deposto por corrupção; outro seria um militante de esquerda, ex-prefeito, senador e deputado e expulso do partido por privatizar a empresa de saneamento e pelo dinheiro da venda ter sumido durante sua gestão; o terceiro é um clássico integrante da classe alta acusado de bater na esposa; e o quarto é conhecido como “nuvem” nos meios políticos: um dia é direita, outro é esquerda; bandeia para o lado que lhe pagar.

– Meu Deus, isso aqui não é mesa redonda, é um banco dos réus – espantou-se Edgar.

– Business, meu amigo, Bussiness. Pense bem: se o telespectador não quer saber do lado sujo dos bastidores do futebol por que deveria ligar para a sujeira dos políticos? Vamos “romantizar” e transformar em eleição em entretenimento. Cidadania que se dane meu caro! Eu quero é faturar!

– Tá, mas e se algum candidato vencer e mostrar contrariedade com aquilo que foi dito no programa? – indagou Edgar.

– Ah, você está de brincadeira…Boa parte dos ex-jogadores de futebol só querem analisar jogo de futebol, contar história e desprezar as negociatas e sujeiras, por que um político seria diferente? Perceba: Tostão é inteligente, maravilhoso, tem boas ideias, cobra o governo, mas a televisão aberta nem lhe procura. Por que? Ele não entra no circo? Pense, pense, pense Edgar! As mesas esportivas nos abriram os olhos. Temos uma oportunidade de ouro. Querido, leve a lista com você e me responda depois.

Sem pressa, apático e com a gravata borboleta torta, Edgar percorreu os 10 andares até a sua sala, cuja mesa era marcada pela inexistência de papéis. Organização ao extremo.

Em determinado instante aquele papel entregue pelo chefe ganhou vida. Parecia que lhe encarava e pedia uma definição. Edgar pegou, dobrou as anotações, abriu de novo e ato contínuo pegou o telefone. Três toques do outro lado e saudação surgiu:

– Alô! Governador! Olá, há quanto tempo? Aqui é o Edgar. Tem cinco minutos? Tenho uma proposta irrecusável para o senhor…

 

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