Por que Luciano do Valle foi muito maior que Galvão Bueno

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Já escrevi  sobre esse tema no Bola com Gravata. Por meses e meses considerei voltar ao tema, mas um bloqueio natural surgiu dentro da minha pessoa. Motivo: o neto dele é meu amigo. Do coração. Mas penso que chegou o instante de lutar contra o estabelecido e de propor uma reflexão.

Após a derrota de ontem da Seleção Brasileira para o Peru, não havia como fugir a constatação dentro de minha mente: Luc iano do Valle foi muito maior para o esporte nacional e o jornalismo esportivo do que Galvão Bueno.

Não renego o talento de Galvão Bueno para descrever e transmitir uma partida. Hoje é insuperável. Mas um jornalista esportivo não é construído somente por seu trabalho na cabine.  Sua postura, atitude e posicionamentos daquilo que acontece no futebol brasileiro, no Brasil  e nos esportes em geral é premissa indispensável.

Digo que no auge os dois se igualam. Luciano do Valle foi insuperável na narração de vôlei, basquete e nos grandes jogos de futebol. Os Campeonatos Brasileiros transmitidos na década de 1970 e 1980, as conquistas de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 e na Fórmula Indy, a vitória do Vôlei Masculino na Olímpíada de Barcelona…Posso listar uma coleção de transmissões de Luciano do Valle inesquecíveis assim como Galvão Bueno também conta com elas. Ok, estamos de acordo.

Agora, na postura e no relacionamento com os dirigentes esportivos, Luciano do Valle foi mais eficiente. Explico: é lógico que por ser um empresário do ramo esportivo, o ex-locutor esportivo da Bandeirantes precisou estabelecer relações para comprar eventos e viabilizar horas e mais horas de transmissão dentro da BAND. Mas percebam: em nenhum momento isto inviabilizou uma viés crítica e independente dentro de sua equipe, especialmente quando o assunto era a Seleção Brasileira.

Pelo contrário: nas Copas de 1990 e 1994, realizadas na Itália e nos Estados Unidos, o programa “Apito Final”, transmitido pela BAND,  era a tribuna esportiva televisiva na Copa do Mundo. Antes, durante e depois dos jogos, Luciano do Valle abria espaço para que Tostão, Silvio Luiz, Rivelino, Juarez Soares e Mário Sérgio apontassem sem dó e nem piedade os erros cometidos primeiramente por Sebastião Lazaroni e depois por Carlos Alberto Parreira. Quem tem mais de 40 anos e teve o privilégio de  acompanhar estas duas Copas sabe que estas mesas redondas eram referência quando o assunto era Seleção Brasileira.

Sem querer fazer comparações, este galhardão nos dias atuais é carregado pelo programa “Linha de Passe”. Coincidência ou não, após sair da TV Bandeirantes por divergências de filosofia, Tostão teve sua última experiência televisiva onde? Na ESPN. Em que programa? No Linha de Passe.

Coloque este cenário do lado e veja a postura de Galvão Bueno com a Seleção Brasileira. Nos programas de debates, especialmente o “Bem Amigos”, o clima é de total camaradagem. Sem apertar ou cobrar. Aliás, um reconhecimento: se a mesa de debates não contasse com Casagrande e Mário Sérgio Guimarães as entrevistas com técnicos de Seleção nestes programas seriam uma tragédia. Ato contínuo, tente relembrar se algum técnico de Seleção Brasileira apareceu no exercício do cargo no  “Apito Final”. Tenho certeza de que foram convidados. E o medo de serem arrebentados por uma bancada crítica? Pois é.

Durante as partidas, nem preciso dizer: Galvão, apesar da voz marcante e saber conduzir um espetáculo como poucos, não consegue realizar uma análise linear do jogo. Se vence, considera a Seleção uma maravilha. Se perder, é o apocalipse. E usa o microfone para insinuar, detonar e endeusar jogadores.

Sim, é mais fácil este cronista receber mais pauladas do que elogios. Galvão Bueno é considerado um intocável, um Deus até dentro da crônica esportiva brasileira. Não tem pecados. Ou quando adota uma postura “vaselina” perante os fatos, a saída é culpar a Rede Globo, sua empregadora. Menos. Se fosse assim, a Rede Globo não contaria com um comentarista crítico, lúcido e independente como Casagrande.

Apesar dos pesares, quem tiver um mínimo de senso critico e análise aprofundada verá algo inevitável: Luciano do Valle foi muito maior do que Galvão Bueno. E faz uma falta danada.

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