Os erros políticos de Dilma Roussef no exercício do poder

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Muito natural neste instante de crise política cada grupo defender argumentos e interesses na busca da vitória tanto nas ruas como no plenário. Ânimos ficam exaltados, amizades são desfeitas e o clima institucional fica insuportável. A análise ponderada fica esquecida no canto do armário. E ela precisa ser feita. Urgente. Até para futuros ocupantes do Palácio do Planalto não caírem nos mesmos erros. Existe a necessidade de avaliar a conduta de Dilma, seus erros e equívocos.

Por mais que as pessoas defendam o atual governo como resultado de um projeto coletivo, o regime é presidencialista. O presidente é responsável por ações, decisões e políticas de governo. A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso ficará sobre seus ombros, por mais que partidários do PT não queiram admitir tal conceito.

A verdade é nua e crua: Dilma errou. Muito. Porém, detalhe: erros que na opinião deste jornalista não justificam sua deposição. Nem a questão das pedaladas fiscais.

Fato que sua conduta política prejudicou o curso dos acontecimentos. Para a construção de um futuro para o campo das esquerdas, é vital refletir e pensar o que deu errado.

UM PÉ EM CADA CANOA

Dilma errou ao colocar um pé em cada canoa de campo político. Desde que foi eleita em 2010, a presidenta sempre parecia disposta a travar uma relação amistosa com o campo oposicionista, tanto aqueles presentes no parlamento, governos estaduais, como aqueles presentes nos meios de comunicação.

Quando aceita participar de um programa de Ana Maria Braga ou mesmo ao encaminhar cumprimentos pelo aniversário de Fernando Henrique Cardoso, a presidenta não transmitiu a sensação de que adotava um gesto involuntário. Parecia uma atitude calculada para arrefecer os ânimos. Deu errado porque não acalmou o campo oposicionista e desagradou o campo progressista que muitas vezes considerou que Dilma queria capitular para o programa derrotado em 2010 e 2014 e encampado por José Serra e Aécio Neves, respectivamente.

Incrível Dilma adotar tal postura quando lembramos que a presidenta conviveu com figuras do porte de Leonel Brizola, e Olívia Dutra, políticos do campo progressista e que, mesmo com seus vacilos, nunca deixavam de emitir sinais de que lado estavam. Pagaram um preço caro? Sim. Mas a coerência política compensa qualquer sacríficio.

ERROS E MAIS ERROS NA RELAÇÃO COM O CONGRESSO NACIONAL

Dilma Roussef errou na condução da articulação política. Nunca esquecer que os primeiros meses do governo não tiveram tantos sobressaltos especialmente porque a Casa Civil era ocupada por Antonio Palocci. Apesar das denúncias que cercam o político, era inegável o seu trânsito tanto no Congresso, como no mercado e no empresariado. Depois de sua saída por suspeita de aumento de patrimônio, a verdade é que o governo nunca mais se encontrou na articulação política: Ideli Salvatti, Aloizio Mercandante e Pepe Vargas tiveram alto índice de erros, poucos acertos e quando a atual dupla formada por Ricardo Berzoini e Jacques Wagner tomou a frente já era tarde demais.

A presidenta demorou a perceber a complexidade de forças no Congresso Nacional, algo existente desde 2011, ou seja, antes das jornadas de junho. Eduardo Cunha subir a presidência da Câmara dos Deputados foi apenas consequência de um processo conduzido de modo errático.

ANÁLISE DAS JORNADAS DE JUNHO DE 2013: O ERRO FATAL?

Dilma Roussef errou na percepção do foram as jornadas de junho de 2013. Existiam reivindicações justas? Sim, muitas. Mas com o surgimento das redes sociais, as lideranças foram pulverizadas e a troca de ideias é mais intensa. Uma líder política de percepção e antenada com os novos tempos deveria utilizar a internet como ferramenta para viabilizar e integrar todas as mídias alternativas e hoje consumidas pela Juventude. A resposta burocrática de Dilma provocou o avanço do campo conservador, que tomou os espaços digitais e hoje utiliza melhor a internet do que o campo progressista. Fato.

Dilma errou ao ignorar as características da politica brasileira. Concordo que existe uma boa dose de preconceito pelo fato de Dilma ser mulher. Existe má vontade presente em cada gesto ou ato seu. Só que não podemos ignorar a história.

Os políticos mais bem sucedidos do Brasil foram aqueles que adotaram o carisma, a conversa fácil, a facilidade de articulação com situação e oposição e capacidade de transmitir otimismo ou serenidade mesmo em horas conflituosas. Cito quatro: Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Lula e JK. Tiveram crises políticas durissimas e sobreviveram no cargo graças ao carisma e a capacidade de articulação.

A DIFICULDADE EM TRANSMITIR A PERSPECTIVA DE QUE DIAS MELHORES VIRÃO

Dilma é dura. Não é defeito, mas não se adequa as caracteristicas da política brasileira. Longe disso. Mas é clara sua dificuldade em fazer pronunciamentos otimistas, com perspectiva de tempos melhores.

Poderia enumerar outros defeitos, mas meu desejo é simples: é óbvio que o campo oposicionista, após perder para ele mesmo em 2014, luta com unhas e dentes para chegar ao poder. Não, Michel Temer não é situação. Nunca foi.

Só que, apesar de não ser acusada formalmente por nada na Operação Lava Jato, não dá para esconder: Dilma Roussef contribuiu na seara política para que o país chegasse a tal estado de conflagração e que deve continuar independente do resultado. Agora, parece ser tarde demais.

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