O que é democracia para o torcedor campineiro?

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Vou quebrar o meu recesso em relação ao futebol campineiro para dizer algo simples, mas complexo. Como? Acompanhe:

– Em 1968 foi instituido no Brasil o Ato Institucional Número 5, que apertou a ditadura brasileira, calou vozes oposicionistas, censurou a imprensa e jogou o país em anos e anos de trevas; Nesse período, o futebol serviu para que diversas atrocidades fossem cometidas. Era um gol da seleção e um crime cometido pelo estado. Traduzindo: torturas, mortes e tudo mais.

– Em 1973, Salvador Allende foi deposto do cargo de presidente do Chile. aliás, foi morto. Dia após dia a imprensa foi perseguida, proibida de entrar em locais que ela deveria cobrir e muitas pessoas foram mortas nos corredores no Estádio Nacional de Santiago; Muitas não, milhares; O futebol a serviço daquilo que existia de pior;

– Em 1976, uma junta militar tomou o poder na Argentina e enquanto corria solta a Copa do Mundo, milhares de pessoas eram presas e jogadas vivas de aviões. O futebol era o sonífero para que a população desconhecesse as atrocidades cometidas nas cidades do país vizinho;

Sim, hoje vivemos uma democracia. Temos toda a liberdade para defender ou criticar Dilma Roussef; Atacar ou defender com unhas e dentes Aécio Neves; Considerar o PMDB um mal ou a salvação da democracia brasileira. A imprensa pode circular em todos os espaços de poder tanto no ambito municipal, estadual e federal. Isso chama-se liberdade de expressão. Sobrenome: democracia.

Por que digo tudo isso? Simples: apesar da luta insana para restabelecermos a liberdade de Expressão, a liberdade e a democracia a mente de muitos torcedores campineiros ainda se encontra nas décadas de 1960 e 1970. Não falam, mas consideram que os regimes de exceção devem ser praticados nos clubes.

Querem o futebol apenas como pão e circo. Não querem criticas. Não querem reflexões. Recusam o confronto. Defender o interesse de clube A ou B significa tolhir a liberdade de ir e vir. De impedir o exercício da profissão de jornalista. Se ele for agredido no exercício da profissão? Azar o dele. Mereceu. É o que pensam alguns dirigentes e torcedores. Não falam, mas pensam.

É duro, cruel, doido, dizer isso mas a verdade é dura: falta cultura, discernimento, sabedoria e por vezes capacidade reflexiva de todos nós, imprensa e torcedores para entendermos a dimensão do que representam Ponte Preta e Guarani em âmbito nacional.

São clubes com história. Gigantes. Com trajetórias singulares. E todo clube gigante, excepcional nos seus detalhes pode e deve ser submetido ao escrutinio da imprensa.

O torcedor, em sua ingenuidade plena, acredita que só ele é capaz de entender e compreender o que pode passar do seu time. Considera desprezível o papel da imprensa. Claro, não são todos os torcedores, mas uma minoria barulhenta, que intimida, agride, ameaça e sufoca. Tudo em nome de vitórias. Que são importantes, fundamentais, mas que estão aquém do essencial, que é a saúde da instituição. Isso só a fiscalização da imprensa poderá produzir. Ou você acredita que doenças podem ser diagnosticadas sem a presença de médicos?

Não, não vou atacar o presidente do Guarani e nem vou relembrar toda história. Até por que no fundo, ele também é vitima. Vitima de um futebol tacanho, artificial, sem profundidade e incapaz de punir corruptos e torcedores com comportamentos equivocados. Um futebol que teima em ficar no século 19, apesar dos avanços Século 21. Um futebol especialista em abrir espaço para jogadores vazios e sem conteúdo em diversas mídias, mas especialista em calar vozes inteligentes como Alex, Rogério Ceni, Paulo César Caju, Casagrande, Reinaldo…Só pode falar do jogo. Os subterrâneos? Deixa para lá? Na primeira vitória ou título todo mundo esquece.

A vitória, nessa concepção, permite tudo. Até calar a voz da imprensa. Ou permitir que ela não exerça sua função. O que gerou em Campinas gestos de solidariedade e respostas fortes e contundentes de veículos de comunicação, como a Rádio Central e o Jornal Tododia. Mas que também foi palco do silêncio trágico e sem sentido de profissionais de imprensa que em nome da audiência, seja em qual for o veiculo de comunicação, consideram que a melhor estratégia para derrotar o concorrente é colocar uma mordaça.

Que ninguém se iluda. Tudo isso acontece hoje em um clube como poderá acontecer em outro no futuro. A ambição, a sede de poder é um vírus que não escolhe vítima ou hospedeiro. Não só por culpa de dirigentes. Mas por que Campinas, a cidade em que nasci, exerço minha profissão e vivo uma relação com a cidade entre tapas e beijos, mesmo após 29 anos do fim do período de exceção, ainda registra pessoas que acreditam que no futebol a saída é que apenas uma voz se manifeste. Sempre a favor. Não importa as consequências do futuro.

Que a voz da liberdade sopre nas ruas de Campinas em 2015. Quando isso acontecer, ostentar o título de capital do futebol voltará a ser uma possibilidade palpável. Não custa sonhar.

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