O jornalismo desvenda Silas Malafaia. Finalmente!

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Acredito e gosto de reportagens que incomodam. Tocam na ferida e fazem refletir. Talvez a única revista de reportagens de fôlego do país, a Piauí, prestou um serviço ao mundo evangélico brasileiro ao fazer na edição do mês de setembro uma reportagem com o pastor Silas Malafaia, da Assembléia de Deus Vitória em Cristo. Para que ninguém fique melindrado: a repórter Daniela Pinheiro, que assina a obra-prima, acompanhou o pastor e sua família por dias e dias e descreveu lugares, ambientes e pessoas do seu convívio. Não existe invenção. Tudo é minuciosamente descrito e o personagem fica exposto a olho nú.Com declarações contundentes.

Primeiro as qualidades: a matéria exibe um Silas Malafaia preocupado com a formação pastoral e com a evangelização de almas. De um jeito tosco e prepotente é verdade, mas existe o foco. Também é de se elogiar a prioridade que dá aos familiares, não só na condução dos negócios, mas também com a formação espiritual dessas pessoas. Ponto para ele.

Também é elogiável verificar que Silas Malafaia não disfarça e não engana. Ele é aquilo. Não faz discurso para agradar A,B ou C. Pensa de certa maneira e ponto. Também é confortante você verificar as pessoas entrevistadas na matéria que foram atingidas por seu ministério. Gente que foi tocada, transformada e mudou de vida. Em um país especialista em formar pessoas tortas, uma que entre no caminho mais correto (em relação ao que estava sendo traçado) é ótima noticia.

Mas a repórter tem um grande mérito: do mesmo jeito que exibiu o Anakin Skywalker dentro da alma de Malafaia, o Darth Vader é exposto a céu aberto, sem censura.

E são quesitos preocupantes. Apesar de criticar o bispo Edir Macedo por sua ânsia em arrecadar dinheiro, a reportagem deixa explicita que, se não for a prioridade número 01, é a segunda do seu ministério. Seja nas vendas feitas no seu programa ou na luta por um horário na televisão. Conversa-se sobre milhões como se fosse dinheiro de pinga. Compra de jatinho, doações milionárias para cruzada…a busca incessante do ouro sempre tem uma justificativa. Também é interessante como o que emerge da matéria é um Silas Malafaia dono da verdade e que utiliza até de termos de baixo calão para atingir seus inimigos e adversários. Conversa com a repórter como se fosse o dono da verdade e não deseja contestação. Diz que fala com amor, mas suas declarações são dotadas de uma violência bélica, cortante. Ele não quer paz ou acordo com os contrários. Ele deseja arrebentar e trucidar, mesmo que seja de modo virtual.

Malafaia diz que não tem nada contra homossexuais, mas a primeira oportunidade utiliza para desancar a classe. Alias, a sua justificativa para as agressões contra homossexuais é de uma falta de critério e de informação que chega a corar qualquer pessoa minimamente entendida no assunto. Detalhe: o cara tem formação superior.  Aliás, como explicar a guinada politica dele, de Lula para Serra em pouco tempo? Talvez essa seja a única lacuna da matéria. E desculpe, se vier com desculpa de corrupção, isso não cola. Porque a sujeira encontra-se em todos os partidos.

Além disso, Malafaia assume escancaradamente a teologia da prosperidade. Que a meta é conseguir conforto e riqueza aqui e agora. E trata o evangelho não como a porta da salvação, mas como se fosse um mercado, com concorrentes, inimigos e metas a serem batidas. Para isso, a televisão é vital. Isso fica demonstrado quando ele reclama de Valdomiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, que teria lhe “roubado” o horário da madrugada na Bandeirantes. Preço da discórdia: R$ 10 milhões. Uma grana que como disse o meu amigo, pastor David Junior, no facebook poderia servir para amenizar a fome de milhões na África ou até mesmo no Brasil. Mas é puro instrumento de poder.  

É revelador também o trecho que mostra Silas Malafaia apresentando-se como um representante de uma Assembléia de Deus e que pode acolher as pessoas que não encontram guarita em um ministério semelhante. E depois reclamamos da volúpia do Abilio Diniz em seus negócios…

Após ler a reportagem fico com apenas uma pergunta na cabeça: “Que Cristianismo é esse?”. Sim, porque se os pioneiros espalharam o evangelho no Brasil ou no mundo, não me lembro de ninguém possuir mente empresarial ou com foco em prosperidade para atingir as pessoas.

Silas Malafaia tem méritos? Lógico que possue. Caso contrário, não estaria há quase 30 anos no ar. Mas a impressão que fica é que ele constitui-se em legitimo representante de uma igreja evangélica nefasta infelizmente com representantes (infelizmente!) em todas as denominações. A igreja que traduz sucesso não a salvação, mas o número de posses. Em que as pessoas possuem vínculos artificiais e calcados as vezes apenas no interesse. Um evangelho que até traz pessoas para dentro da aldeia, mas sem nenhum embasamento bíblico e ético de vida. Um contingente da população que ataca grupos minoritários e considera que democracia é apenas quando o seu lado é ouvido. Uma parcela da sociedade que é solidária da boca para fora, mas na hora do real sufoco, pensa que um simples oração (que é importantíssimo!) resolve o problema.

Sou protestante, creio em Jesus Cristo, no seu plano de salvação e especialmente no carinho que ele tinha com os desamparados e excluídos. Aliás, Jesus preocupou-se mais com a salvação, cura e amparo aos parias da sociedade do que com posses ou dinheiro. Hoje, infelizmente, em alguns casos, o esquema está invertido. Por isso, com todo o respeito que merece o Silas Malafaia e seus fãs, a visão que ele tem do salvador não é a mesma que possuo.  E ponto.

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