Jornalista assumir o time para o qual torce é tão simples assim?

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Na última semana, dois cronistas esportivos foram flagrados durante o jogo entre Atlético Mineiro e Arsenal em Sarandi. Estavam nas arquibancadas e vibraram com os cinco gols anotados pelo time treinado por Cuca. Imediatamente, muitos torcedores usaram as redes sociais para criticar a atitude dos dois jornalistas. A réplica de companheiros de profissão foi impiedosa e formou-se um clube altamente perigoso: daqueles que assumem o clube para o qual torcem e são eleitos como sérios. O resto, que não publica o time do seu coração, são tachados como até mal intencionados.

Penso que esse manequeismo atrapalha a discussão. É preciso deixar claro: 90% dos jornalistas que assumem o time para o qual torcem são comentaristas. Ou seja, não estão envolvidos com o dia a dia dos clubes, em que é preciso conviver com dirigentes fanáticos, torcedores organizados geralmente voltados para atos temerosos e até alguns atletas que cravam a obrigação do jornalista defender a instituição para o qual trabalho. Pergunta: se o repórter assumir que torce ao arquirrival para qual trabalha, sua integridade não está ameaçada?

Sou comentarista e repórter em Campinas e sei que comentar futebol é uma tarefa de alta complexidade se levada a sério. No dia da partida, em comparação aos repórteres temos uma certa malha de proteção, porque na maior parte dos estádios estamos em cabines e protegidos de torcedores mais afoitos. Eu particularmente tenho um critério desde que abracei a profissão em 1994: se trabalho como repórter ou comentarista, frequento os estádios de futebol apenas como profissional, salvo raras exceções.

Só por esses exemplos citados dá para cravar que assumir um time de futebol ao distinto público não é tão simples como parece. Até porque cometemos o erro de imaginarmos o torcedor com um comportamento padrão e a realidade é que a paixão tem diversas facetas. Ás vezes, a melhor tática é sim respeitar e informar o seu time do coração só quando for inquirido. Isso não é esconder e sim possuir um mínimo de respeito com a paixão alheia, que geralmente não compromete a diversidade. É triste? Pode até ser. Mas a democracia é construída quando convivemos diversas personalidades e linhas de pensamento.

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Elias Aredes Junior é jornalista, radicado na cidade de Campinas, Estado de São Paulo. Trabalha como repórter esportivo para o Jornal Todo Dia de Americana e também como comentarista esportivo para a Radio Central AM de Campinas, 870 KHz. Diariamente participa dos comentários na programação esportiva entre as 18:00 e 20:00, além de comentar jogos de futebol nas transmissões ao vivo da emissora. Aqui ele fala sobre tudo, futebol, esporte, política, religião, entretenimento, cultura, culinária, tudo isso sempre com seu olhar crítico e independente.

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