Família é vital. Mas a “solidão coletiva” mata o Brasil aos poucos

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A prosperidade de uma época não é marcada apenas por dinheiro e expansão de propriedades. Tem como característica outros conceitos que fogem da análise de economistas, sociólogos e analistas de grande apelo midiático.

Todos os dias refletimos sobre a crise política no Brasil. Econômica também. É verdade. Mas existe algo muito pior em evidência. Somos confrontados com a derrota dos relacionamentos na sociedade. Vivenciamos uma “solidão coletiva”, semente principal para os conflitos e a quebra da normalidade de convivência.

O que seria a “solidão coletiva”? O conceito primordial seja a valorização exacerbada da família. O clássico papai, mamãe, filhos, avós e sobrinhos e agregados. Somente entre eles vale a pena conviver. Não há possibilidade de relacionamento e estabelecimento de laços com amigos feitos pela vida. Nada de conviver na casa do amigo querido. A relação em sociedade é arrebentada e deixada em segundo plano em nome de uma relação única e fechada, sem chance de abertura.

Faça uma visita nas redes sociais. Nunca esteve tão em moda a realização de reuniões em família. Ajuntar gerações e mais gerações com sobrenome idêntico para trocar experiências, informações e afeto. Ótimo. Lindo. Maravilhoso. É pouco. Quase nada diante da complexidade e da variedade oferecida pela vida.

Não nego os conceitos propagados por anos e anos em Igrejas Cristãs e até por alguns partidos políticos. Mas ao se dedicar 100% ao núcleo familiar você perde a chance de experimentar sensações e características que nunca um irmão, avó, tio, sobrinho ou tio jamais poderão lhe conceder.

Salvo exceções, as suas histórias e de seus parentes são conhecidas, compartilhadas, degustadas e vistas detrás para frente. O que move o ser humano é o diferente, inusitado, o novo. E isso só uma pessoa por vezes desconhecida poderá lhe fornecer. Fato.

Nestes tempos conservadores, o conceito de família é absoluto e poderoso e por um motivo: as religiões ganham poder e influência. Nas Igrejas Cristãs Evangélicas, por exemplo, o sucesso de uma pessoa bem sucedida socialmente não é medida pelo número de amigos fiéis que ele possui e sim pela extensão e capilaridade de sua família. Se o pai for ministro de louvor, a mulher estiver envolvida no trabalho social e os filhos forem frequentadores assíduos de acampamentos pode acreditar: serão sempre recebidos de tapete vermelhos nos locais coordenados pela instituição. Eu já presenciei mulheres desquitadas e dedicadas ao trabalho de Jesus, com conduta inabalável e serem colocadas para escanteio. Não contar com uma família formada. O pecado inafiançável.

Eu já pensei assim. Acreditava que essa era a verdade absoluta. A vida em abriu os horizontes. Entender que o relacionamento social, de amizade e de afeto com várias pessoas me proporcionam algo único, intransferível.

Não sou de citar pessoas. Só que dessa vez eu preciso ser claro. Para que todos entendam. Conheço um locutor noticiarista chamado Edgar Martins. Culto, preciso, bem informado. Ele pensa totalmente diferente desta pessoa que vos escreve em termos de política, cultura e religião. Mas cada encontro com ele é uma aula de vida. De sabedoria. Como abrir mão disso? Qual motivo para descartar tamanha transferência de informação e ponderação em um papo, mesmo que de cinco minutos?

No início de minha carreira de comentarista esportivo, tive como chefe o jornalista e apresentador campineiro Walter Paradella. Assim, como eu é uma figura de personalidade forte, destemida e com um conhecimento político, social e da cidade de Campinas que poucas vezes vi. Conversas com ele eram uma aula de cidadania. Mais: ali existia sentimento, afeto. Tanto que sua solidariedade, apreço e carinho demonstrados quando perdi meus pais em menos de uma semana muito amigo próximo não ficou nem perto disso. Encontrei com ele em uma calçada de bar há uns dois anos. Saía do trabalho. Um cumprimento de dois minutos virou uma conversa de duas horas.

Por quatro anos também convivi na Rádio Central com Alberto César, o locutor principal e chefe da equipe de esportes. Tínhamos divergências em muitos assuntos. Vários temas. O tempo passou e Deus me ensinou por intermédio da vida dele que apreço e afeto não são construídos por intermédio de ideias e conceitos e sim pela próximidade do coração. Você acha brega, cafona? Pode ser. Só que estes conceitos tão simples e puros estão em falta no mundo.

Agora, pense: que garantia tenho de que se eu ao trocar tudo isso por convivência ininterrupta com pessoas do meu sangue, sem conviver “fora da caixinha” eu teria a amplitude obtida hoje?

Pai, mãe, irmã, primo, avó, avô, tio, tia, sogra, sogro, nora, genro são personagens centrais para a formação da nossa personalidade moral e de caráter. Isso não se negocia. Mas não há deixar de navegar nesta grande aventura humana que é a vida em sociedade. Pense nisso.

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