Em dezembro, compareça a uma Igreja Evangélica. Mas esqueça os 11 meses anteriores…

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Meu pai dizia que não existia lugar melhor para freqüentar do que uma Igreja Evangélica. Mesmo quando ela fosse ruim. Não nego: por diversas vezes freqüento sem desejar. Ainda hoje passo por isso. Em contrapartida, vejo milhares de pessoas decepcionadas e afastadas. Não querem envolvimento. Estão dilaceradas e machucadas. Quem está dentro pouco se importa. Sim, essa é a verdade.

Quando pressionadas pelo desligamento dos outros, dizem que a culpa é de quem está fora da igreja ou em última análise do diabo. Nunca das pessoas que sentam nos bancos e utilizam aquelas duas horas semanas para estreitar o relacionamento com Deus, mas para satisfazer suas vontades mundanas de ambição e poder.

Estamos as vésperas do Natal. Nada mais apropriado apelar ao sentimentalismo de freqüentar uma Igreja Evangélica, não é mesmo? Pois é. Mas talvez a Igreja esteja perdendo o encanto não por causa de Jesus e de seu ministério e sim por causa do atraso reinante em boa parte das denominações.

Sim, porque a vida real é feita de outras vertentes e cenários. A vida real exibe 850 mil mulheres, pobres na maioria, submetidas todos os anos ao flagelo do aborto. São mulheres que vivem um drama pessoal que dilacera, arrebenta com a auto estima e produz cicatrizes. O que a Igreja faz no ano? Condenam, criticam, mas nunca apresentam uma alternativa.

A vida real é feita de 12% dos lares brasileiros serem comandados por mulheres com filhos e que comandam famílias. O que faz a Igreja Evangélica Brasileira? Dá suporte? Incentiva? Nada disso. Inicia uma pressão psicológica sem precedentes para que a mulher case oficialmente com o primeiro que aparecer em sua frente. Se der errado, tudo bem. A Igreja não tem qualquer responsabilidade nisso. Sinal de falta de tato e sintonia com os novos tempos. Afinal, e se a mulher quer viver sozinha? Qual o problema?

A vida real também é feita de sete milhões de pessoas que ainda não saíram da linha da pobreza, de acordo com o IBGE. Gente que ainda não tem acesso ao bolsa família ou que não foi contemplado com qualquer programa social. Em conjuntura normal, a função da Igreja Evangélica Brasileira seria ajudar e intermediar para que essas pessoas tenham vida mais digna. Nada disso é feito. Pelo contrário. A maioria das igrejas, pastores e freqüentadores querem deter o monopólio da caridade. Criticam o bolsa família, repudiam os programas sociais mas consideram que dar um prato de sopa ou de comida uma vez por semana é suficiente para proporcionar dignidade aos moradores de rua. É um ato nobre, mas insuficiente.

Para terminar, o dia a dia também é feito pelas 54 milhões de pessoas que escolheram a continuidade do atual governo. Você pode reclamar, chiar, mas precisa respeitar a voz das urnas. Em boa parte das Igrejas Evangélicas não é assim. Não existe pudor. É perseguição na lata para quem ousa dizer que vota no PT ou em qualquer partido progressista. Ou que tenha alguma idéia fora do modelo estabelecido. Exemplo prático: o jornalista de plantão considera que não se deve recriminar ninguém por sua orientação sexual. E que atos de violência contra homossexuais devem ser repudiados e combatidos. Não duvide: eu seria repudiado. Ou até expulso. Não para nisso. Querer discutir, debater ou trocar idéias sobre qualquer tema fora de religião é considerado heresia. Tudo isso em pleno século 21. Fica a pergunta: quando o pastor, que durante todo o ano meteu o pau no PT, pedir uma oração pelos governantes e pelo êxito de Dilma Roussef, será que estará sendo sincero? Dúvida que fica.

Se você deseja freqüentar uma Igreja Evangélica nestas festas natalinas faz muito bem. No entanto, esqueça o que rolou nos 11 meses anteriores. Senão, é capaz de você chegar a conclusão de que o melhor é ficar em casa.

 

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