E se Lula fosse negro?

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Gosto de fazer reflexões. Pensar em cenários hoje distantes e projetar a reação. Pegue o exemplo de Luiz Inácio Lula da Silva. Existe um ódio doentio contra ele. Nos jornais, rádios, televisões, consultórios, púlpitos religiosos e outros ambientes. O Sindicalista do ABC virou inimigo de parte da sociedade brasileira. Nascido em Pernambuco, vencedor em São Paulo, chegou ao Planalto e fez história. O roteiro seria dramático se outro dado fosse acrescentado: E se Lula fosse negro?

Sim, um negro nascido em Pernambuco e com a família na militância pela causa contra o preconceito racial. Um negro saído das lutas sindicais e que alcançasse a Presidência da República. Como seria a reação da ala oposicionista da sociedade?

Para começar, acredito que muitos ficariam confusos. O ódio de classe seria misturado com a ojeriza racial. Detalhe: nada poderia ser exposto. Uma desculpa teria que ser encontrado. Qualquer denúncia seria válida. Afinal, o Brasil é um país miscigenado e democrático na visão de muitos e racismo é crime. Disfarçar seria um instinto de sobrevivência.

O que aconteceria se ele, negro, no exercício da Presidência da República, afirmasse em discursos que os negros ganham, no mínimo, 30% a menos que os brancos? Que existe a necessidade de cotas raciais? Lula, sendo negro,  poderia bancar a Secretaria de Igualdade Racial com status de ministério. Seria atacado? Ou  Denúncias seriam arranjadas para justificar um ódio, que no fundo, seria racial?

Imagine Lula, negro, com todos os filhos em pose familiar e casado com Marisa, branca e com filhos negros e mulatos. A patrulha não iria surgir?

Líder popular, carismático, cativador de multidões, hábil politicamente e negro. Lula seria seguido, cobrado, perseguido, atacado e detonado dia após dia no seu mandato. Encontrariam defeitos e problemas em qualquer auxiliar negro que fosse nomeado. Propostas de cotas seriam mais atacadas do que já são. Receberia a fúria dos opositores se tentasse implantar o dia 20 de novembro como feriado nacional. Seria comparado pela imprensa com Celso Pitta, o negro que chegou a prefeitura de São Paulo e foi um fracasso, apesar do apoio inicial do padrinho político Paulo Maluf.

Criticado por todos os lados, comparado como o demônio por muitos, Lula talvez seja o líder político mais perseguido e odiado da história republicana do Brasil. Recebe um ódio e um ressentimento que superou de longe Getúlio Vargas e JK. Acredite: poderia ser pior. Muito pior. Bastava que fosse negro.

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