Ditadura militar e igrejas evangélicas: a partir de agora, a omissão de pastores será pecado mortal!

0
19

Jeremias Pereira, Edir Macedo, Ed René Kivitz, Ariovaldo Ramos, Ednei Bertelli Reolon, Jabes Alencar, Jocymar Fonseca, Lázaro Aguiar Valvassoura, Ricardo Gondim, Fernando Leite, Ricardo Agreste, Silas Malafaia, Marco Feliciano. Nomes com pensamentos e procedimentos diferentes e que agora detém uma tarefa em comum: a obrigação moral de se pronunciar sobre as conclusões do relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre a participação das Igrejas Cristãs Evangélicas na ditadura.

Não adianta fugir da constatação. Apesar da luta e da abnegação de muitos jovens e líderes evangélicos na luta contra o Estado de exceção vivido por 21 anos no Brasil, a Igreja Evangélica, enquanto instituição nunca deixou de prestar apoio formal ao movimento golpista de 1964. Logo na sua introdução, o relatório comandado por Paulo Sérgio Pinheiro é direto: (…)o conservadorismo, que sempre foi a tônica entre os evangélicos,provocou a omissão das igrejas frente à imposição da ditadura militar no Brasil e também tornou possível o alinhamento de boa parte das lideranças evangélicas com o governo de exceção”. Ou seja, a Igreja Evangélica não estava próxima do poder. Ela ERA o poder. Com seus benefícios e prejuízos. A perseguição, aliás, começa a partir de 1960, quando lideranças da Confederação Evangélica do Brasil eram seguidos de perto pelo DOPS.

O relatório, mesmo com as dificuldades de investigação, é muito feliz em separar as vertentes evangélicas, entre históricos e pentecostais e comportamentos diferenciados. Descreve com felicidade o conflito vivido dentro da Igreja Metodista. Quando os líderes apoiavam e até atuavam como delatores do regime, jovens e líderes de segundo escalão sofriam a perseguição e tortura nos porões da ditadura. Pai do ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o cientista político Anivaldo Padilha dá um depoimento em que emerge todos os métodos truculentos e sanguinários exibidos nos anos de Chumbo. Confira:

“Ao chegarmos à Oban (…) assim que a porta se fechou, recebi um soco no estômago, com tal violência, que caí e fiquei alguns segundos sem poder respirar. Começaram, então, a aplicar em mim o “telefone”, método de tortura que consiste em golpear os ouvidos da vítima com as duas mãos ao mesmo tempo, em formato côncavo. Os golpes foram repetidos várias vezes, seguidos de gritos para que eu confessasse ser membro de uma organização clandestina e que revelasse os nomes e endereços de todos os meus amigos. Descobri que estava diante do chefe da equipe de plantão naquele dia, o conhecido capitão Albernáz. Não consegui saber o nome do seu assistente

naquele momento. Após esse interrogatório fui levado a uma das celas(…)”.

Poderia citar outros depoimentos, como da ex-aluna de Teologia Ana Maria Ramos Estevão, vitima de choques nas partes intimas; ou de Leonildo Silveira, atuante na Igreja Presbiteriana e que perdeu o emprego por ser taxado de subversivo. Penso, no entanto, que um relato é suficiente para descrever aqueles tempos de horror.

O relatório é uma exposição clara de como as igrejas evangélicas não tinham apreço pela democracia. E como suas lideranças colaboraram para um período de trevas no país, quando suas missões deveria ser a de buscar a luz. Diante destes e outros relatos, perguntas saltam aos olhos e que precisam ser respondidas pelos atuais pastores, seja qual for a denominação, midiático ou não. Querem algumas? Vamos lá:

– Diante do relatório, pessoalmente, como os pastores se posicionam a respeito da ditadura militar?

– Se os pastores condenam regimes ditatoriais que perseguem Cristãos, por que o silêncio sobre o tema, ocorrido no Brasil e  por tanto tempo?

– O que significa democracia para os pastores atualmente?

– É democrático repudiar e recriminar pessoas que não estejam enquadradas no “modelo ideal” estipulado por eles?

– Por que uma boa parte desses pastores atualmente está alinhada e apóia de modo entusiasmado políticos que serviram de alicerce para a ditadura especialmente na década de 1970?

E a pergunta principal, que não quer calar:

 

– Se por um desastre do destino, a ditadura voltasse ao país, de que lado os pastores estariam? Da luta pelo restabelecimento da democracia ou estado de exceção?

Pois é, a partir de agora, adotar a omissão como parceira será pecado fatal.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here