Deixa para lá: a expressão que corrói aos poucos a sociedade brasileira

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Perdi a conta das derrotas e frustrações vividas. Fatos que dilaceraram a alma e até alteraram minha visão de mundo. Um amigo íntimo que ficou indiferente. O ato de preconceito racial contra este que vos escreve ou contra a família. Um emprego perdido ou uma traição inesperada. A tristeza por sentir que o Cristianismo vive um caminho errático e tortuoso.

Poderia citar e enumerar muitos acontecimentos. Você também. O seu vizinho idem. Como também seus inimigos. Nestas fotografias da vida que trazem mais dor do que satisfação ou mágoas que parecem infinitas uma frase sempre está presente na boca de alguém: “Deixa para lá”. Parece uma expressão neutra, sem vontade ou vida. Ou a típica postura da figura conhecida como “vaselina”, ou seja, o que fica em cima do muro, louco para agradar a todos. No final, você sabe…Não agrada ninguém…Nem a ele.

O “Deixa para lá” tem um significado perverso, escondido no cotidiano: a abertura para o aprofundamento de chagas, tanto na nossa alma, como na nossa alma.

Na sociedade, o “deixa para lá” produziu um atraso infinito no combate a fome, a miséria, a pobreza, a desigualdade de renda. O tempo passou e a consequência ficou nítida após a crise política que vitimou a presidenta Dilma Roussef.

De um lado, o povo pobre desasistido, com temor sobre o amanhã. Por que este estrato da população sempre foi vitimada pelo “Deixa para lá”. Do outro lado, uma parte (uma parte! Repito: uma parte) da classe média alta, patrocinadora do “deixa para lá” por anos e décadas e que agora não aceitem mais que “deixem para lá” o seu bem estar e conforto. Nem que para isso a base da pirâmide seja sacrificada.

Não ignoro a existência de uma classe média generosa, solidária, humana e pronta a juntar-se na luta contra a pobreza, discriminação racial e direitos das minorias. São pessoas das mais diversas ideologias. Inclusive do espectro conservador. Mas uma parcela da classe média agora grita que agora é hora de “deixar para lá” a melhoria de vida dos mais pobres.

O “Deixa para lá” não arrebentou apenas com a vida em sociedade. Evitou o aprofundamento de lutas capazes de mudar a sociedade e que são adiadas em nome de cordialidade perniciosa. Quantos negros, vitimas de injúria racial ou até de atos de racismo nunca foram confrontados com a seguinte frase, por vezes de um interlocutor próximo: “Deixa isso para lá. Para que procurar a Justiça. Essa questão de racismo ninguém se importa. A Justiça nunca te dará razão”. E algumas vezes, o negro ferido em sua alma cai na cilada. A cordialidade entra em campo. Tudo fica ajeitado na aparência. Por dentro, na alma, a ferida só aumenta.

Muitos acusam este escritor de linhas tortuosas de perseguir as Igrejas Cristãs Evangélicas. Não persigo. Apenas alerto de como o “Deixa para lá” contaminou um ambiente cujo o poder de Deus deveria detonar um sentimento de furor e volupia para colocar em prática não somente projetos individuais e da instituição, mas combater questões do cotidiano que transformam-se em areia movediça e separam ainda mais Deus dos homens.

Jovem não se integra na igreja por falta de amizade? Deixa para lá.

Silas Malafaia descarrega preconceito contra homossexuais? Deixa para lá.

Casais com filhos não querem saber de se relacionar com solteiros ou casais sem filhos? Deixa para lá.

Mãe solteira chega na igreja e não tem assistência? Deixa para lá.

O povo Cristão é conhecido como povo alienado? Deixa para lá.

Querem impor voto de Cabresto? Deixa para lá.

Ele vota em partido progressista e não tem espaço na Igreja? Deixa para lá.

Fiz uma relação daquilo que acontece na Igreja. Você pode dizer aquilo que não querem resolver na sua empresa, escola, trabalho ou em outro ambiente social. Pouco importa.

O “Deixa para lá” é o sintoma de uma doença muito corrosiva e em pleno vigor na sociedade: o que interessa sou eu. O resto que se exploda. Ou deixa para lá.

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