Confissões de um protestante “derrotado”

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A vida é feita de símbolos. Fatos que nos fazem refletir, pensar, analisar e nos deparar com nossas falhas, derrotas e fracassos. Ao perceber o avanço de Marina Silva para ser a nova Presidente da República minha preocupação nem é com o significado da vitória em si. Afinal, a democracia é transitória, quem ocupa o poder hoje terá dado saída amanhã e a vida segue. Se quem vota no PT hoje é amaldiçoado, por outro lado eu tenho orgulho de dizer que votei em gente que tirou 32 milhões de pessoas da miséria. Não quero.

Mas não quero usar este texto para falar de política. Quero utilizar este espaço para falar de minha trajetória. De como a vitória de Marina Silva me traz um gosto de derrota pessoal, íntima. Não no sentido político, mas religioso e de relação interpessoal. De certa forma, ela representa tudo aquilo que ouvi meus pais, de formação humilde condenarem nos 38 anos em que convivemos: sectarismo, fundamentalismo, misticismo, separatismo. Sim, lembro que minha mãe dizia que não frequentava determinadas igrejas porque eram exclusivistas. Ou seja, só eles achavam que tinham razão.

Mesmo com tais ensinamentos sábios um dia eu fui Marina Silva. Eu fui sectário, preconceituoso, exclusivista e achava que os dogmas bíblicos deviam ser colocados goela abaixo das pessoas.

Não adquiri isso de maneira gratuita.

Após ser criado em uma igreja protestante tradicional, mas de certa maneira com dogmas ponderados, entrei primeiramente em uma outra igreja da mesma denominação mas com um ideário pentescostal. Posteriormente passei 10 anos em uma denominação que poderíamos dizer que era de uma linhagem “Pop”. Ou seja, todo crente queria frequentar…

Por anos e anos, uma dúvida me afligia: meus melhores amigos estavam todos fora da igreja, mesmo que o contato fosse efêmero.

E ninguém pense que não obedecia a cartilha: acampamentos, vigílias, cultos, escola dominical…participava de todas as programações. Mas quanto mais eu participava, mais as pessoas pareciam distantes de mim, mesmo por seguir a determinação das pessoas de que deveria votar e seguir os dogmas daquela igreja.

Foi quando aconteceu um episódio singular na minha vida. Era 1989. Ano de eleição presidencial. As igrejas evangélicas estavam fechadas com Collor. Eu tinha 16 anos e votava pela primeira vez. Meu pai, por admirar Mário Covas desde a época do PMDB dizia que votaria nele e que depois daria voto no Collor seja contra Lula ou Brizola. Eu, com admiração paterna latente, segui seu conselho no primeiro turno.

E parecia disposto a apostar em Collor, especialmente por ouvir as pregações domingo após domingo de que Lula seria a antessala do inferno e do comunismo.

Foi quando uma professora mudou minha vida. Eu estava no segundo colegial, no colégio Cyro de Barros Resende e em um grupo de amigos quando a professora de português, Sueli, me chamou na sala. Pensei que levaria uma bronca, mas não esqueço suas palavras até hoje…

– Elias, você um garoto inteligente, esperto e vi que você falou algumas coisas aos seus amigos que não correspondem a verdade. Quero que você reflita sobre alguns pontos a respeito da eleição. Veja isso aqui…

De repente, a professora abriu uma pasta cheia de recortes do Jornal do Brasil. Colunas de uns tais de Carlos Castello Branco e de Ricardo Noblat. Norte: criticas e mais criticas sobre a trajetória de Collor na política, com suas mutretas e pilantragens. Ao mesmo tempo, exibiu o ideário e os famosos tijolaços de Leonel Brizola.

Por duas horas, aquela professora, que lecionava em Valinhos, mas tinha um ideário progressista na cabeça, me fez conhecer em detalhes a trajetória de vida de um cara que ficou fora, voltou ao país e nunca deixou de acreditar na educação como forma de salvar um povo. Saí daquela sala outra pessoa, uma convicção que aumentou quando meu pai disse que Brizola tinha formação protestante. Estava fechado o circulo. Para abraçar e acreditar no ideário de partidos como o PDT, PT e PC do B foi um pulo.

Mas algo acontecia: quanto mais eu era apresentado a esse mundo de busca de oportunidades iguais para todos e solidariedade, mais me sentia distante da igreja. Por que o método era diferente daquilo que me passavam. Nas igrejas existia um chefe supremo, auxiliares obedientes e uma plateia passiva, sem ideias ou iniciativa. No entanto, eu tentava, buscava uma saída.

Foi quando a partir de 1998 fiz uma nova tentativa. Entrei para a igreja “pop”. No primeiro ano, a rotina era apenas e tão somente ir, assistir ao culto e ir embora. Nenhuma amizade e nada de interatividade.

Enquanto isso, minha vida promovia uma nova virada. Entrada para o departamento de imprensa do Sindicato dos Eletricitários. Uma verdadeira escola da vida. Aprendi na prática com algumas pessoas o que era amor ao próximo, solidariedade, carinho, afeto…Sim, tudo aquilo que deveria ter aprendido na igreja, mesmo com atitudes de clara carência e de atenção. Querem um exemplo? Por anos e anos, quando estava na igreja “Pop” eu por diversas vezes, ficava na fila após o culto só para ganhar um aceno, um “oi” do pastor responsável pelo culto. Perdi as contas das vezes que perdi ônibus só para ouvir “Oi, paz do Senhor!” Isso, no entanto, não gerou proximidade.

Pior: produziu dúvidas, incertezas, baixa auto estima. Sim, porque a pergunta que me vinha a cabeça era: “por que me sinto tão a vontade no meu local de trabalho e aqui, a Casa de Deus, me sinto desconfortável?”

Não posso negar que existiu uma fase positiva e de convivência positiva, mas gerada muito mais pela minha postura. Eu media palavras, pensavas nos assuntos que lançava, enfocava mais no meu bom humor. Ou seja, eu não me exibia de corpo inteiro. Era, antes de tudo, um instinto de sobrevivência no meio de uma selva predadora.

Conforme o tempo passou e as mudanças ocorridas na minha vida – especialmente o falecimento dos meus pais em setembro de 2011 – fatos me fizeram ver que amor e carinho independem daquilo que você é e faz.

No enterro do meu pai vivi dois episódios singulares. Um amigo de faculdade, André Lux, não sabia sequer o local do enterro. E apareceu para prestar a última homenagem ao meu pai. Gustavo Porto, outro amigo dos tempos de Pucc,saiu de Ribeirão Preto e foi ao velório e enterro. Enquanto isso, um padrinho de casamento, frequentador de Igreja, ligou no meu celular para dar um telefonema de dois minutos para prestar pêsames. Pois é.

Desde esse dia, comecei a refletir que mesmo me anulando, colocando na gaveta minhas ideias e me submetendo ao método de vida pregado nas igrejas não existia garantia de que teria uma recíproca total e verdadeira.

Hoje, de certa forma, apesar de acreditar em malefícios na eventual vitória de Marina Silva, me sinto cumplice de seu triunfo. Sim, porque de certa maneira eu fiz parte desse modus operandi, já aceitei que era normal insultar e agredir homossexuais, abracei a tese da “roleta bíblica”, considerei normal a Teologia da Prosperidade e não via nada demais gente sair da igreja por entrar em desacordo com linhas de pensamento divergentes. Eu me calei. Fui omisso. Fiquei em cima do muro. E tanto eu como milhares assistimos impassíveis a evolução da bancada evangélica, do discurso raivoso e preconceituoso de Silas Malafaia e Marco Feliciano ou de outros lideres menos cotados.

Assisti sem fazer nada em relação a essa corrida desenfreada dentro das igrejas por propriedades, casas, carros, poder, dinheiro. Criticas? Nada disso! Tudo deveria ser internamente, sem expor a igreja e Jesus Cristo. Como se Ele fosse comparsa dessa metodologia lamentável.

Hoje, dia 03 de setembro, diante da perspectiva de vitória de Marina Silva, tenho a sensação de que a qualquer hora e lugar, uma frequentadora ou fiel vai chegar em mim, colocar o dedo em riste e disparar: “Está vendo? Do que adianta você reclamar. Nós vencemos! Você é um desertor, um inútil”.

Sou invadido por pensamentos duros, tristes e necessários: “Valeu a pena? Será que tenho gente lá dentro que realmente me aceita como sou? Será que Jesus Cristo aceita que um frequente uma igreja com a pecha de ser constrangido no pátio ou pastores que utilizarão o púlpito para celebrarem a SUA VITÓRIA? Será que lideres com os quais convivi exibiram um carinho genuíno? E os amigos? Será que eles existiam? E se existiam porque me ignoram na rua ou nas redes sociais”

Repito: não esconderei minha decepção pela provável vitória de Marina Silva. Mas o seu triunfo, mesmo que indiretamente fará chegar a seguinte conclusão: a igreja para mim, foi uma benção por encontrar Jesus Cristo e a mulher que eu amo. De resto, evito todos os dias, chegar a conclusão que foi perda de tempo. Que Deus me mostre outra realidade.

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