Collor-1992 e Dilma-2015: quem não percebeu as diferenças?

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Vira e mexe vejo internautas e políticos de oposição usando a queda de Fernando Collor de Mello em 29 de setembro de 1992 como argumento para construir idêntico destino para Dilma Roussef. Dizem que por parte do PT e seus apoiadores existe a utilização de dois pesos e duas medidas. É decepcionante perceber a falta de contexto histórico e capacidade de análise de alguns. O álibi só é utilizado quem não posta na mesa três diferenças fundamentais.

A primeira está no fato em si. Existem divergências profundas se a utilização das pedaladas fiscais configura pedido de impedimento. Juristas renomados como Dalmo Dallari argumentam que o expediente não é motivo.

Existem juristas na defesa da tese contrária? Concordo, mas nunca é demais lembrar que em 1992 a acusação contra Collor virou realidade após investigação de CPI que quebrou sigilos bancários, cruzou dados e teve à disposição um depoimento de um motorista que atestou que entregava quantias em dinheiro para as despesas pessoais do presidente. Mais devastador, impossível.

A segunda tábua de distância de 1992 para 2015 está no apoio da tese. Na década de 1990, todos os movimentos sociais e lideranças partidárias de peso estavam favoráveis a queda de Fernando Collor. O apoio da população a uma ruptura do Congresso era inquestionável.

No dia 06 de setembro de 1992, a Folha de S. Paulo trouxe uma pesquisa do Datafolha que afirmava que 75% da população queria Collor fora e outros 78% consideravam que ele estava envolvido com Paulo César Farias. Neste levantamento, 61% acreditavam que a Câmara dos Deputados aprovaria o pedido de retirado de Collor.

Em 2015, a situação de Dilma é um pouco melhor pois 65%, de acordo com o mesmo Datafolha querem o seu afastamento e 30% não querem que o processo vá adiante. Mais: 56% dos entrevistados apostam que ela não será afastada. Contra números é difícil argumentar.

O terceiro fator que impede comparar 1992 com o primeiro ano do segundo mandato de Dilma está nas lideranças políticas. Em 1992, Fernando Collor tinha praticamente ninguém ao seu lado, exceto Leonel Brizola, que mantinha uma relação republicana por ser governador do Rio de Janeiro. Todos os outros estavam favoráveis ao seu afastamento: Lula, Franco Montoro, Mário Covas e especialmente Ulisses Guimarães, inflado de credibilidade por sua participação na montagem da Constituição de 1988.

Pare e pense. Em 2015, quem tem estatura política exorbitante para conduzir as manifestações políticas e articulações: Aécio Neves? Carlos Sampaio? Michel Temer? José Serra? FHC?

Em contrapartida, ao contrário de Collor, Dilma já tem o apoio de governadores e lideranças como Ciro Gomes, Flávio Dino e da principal liderança popular dos últimos 50 anos, Lula.

O cenário pode mudar e Dilma cair ou até a chapa ser impugnada com a convocação de novas eleições. Mas só por esses fatos enumerados dá para cravar que utilizar o passado para produzir travessuras no presente é um ato de má-fé ou ignorância política aguda.

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