Bolsa Familia: alavanca ou muleta?

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Não há como fugir da constatação: os seus 10 anos de funcionamento não farão o Bolsa Família sair da pauta de discussões da próxima campanha eleitoral. O tema gera debate, controvérsia e troca de ideias. Na edição deste domingo do jornal “O Estado de São Paulo” o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, ligado a ex-senadora Marina Silva, disse que  considera positivo a questão da inclusão social, mas ficaria feliz se 1 milhão de pessoas saíssem do bolsa família e não ocorresse a inclusão de 1 milhão de pessoas no programa. E que o programa tem que servir como alavanca de crescimento econômico da pessoa e não uma muleta.

Autonomia das mulheres

No entanto, uma pesquisa e ouvidos atentos fazem com que avaliação sobre o programa ganhe maior amplitude. Exemplo disso é a revista Sociologia, número 50, editado pela Escala e que traz a reportagem principal o debate a respeito do Bolsa Família e com opiniões divergentes. A reportagem traz, por exemplo, o levantamento conduzido pela socióloga da Unicamp, Walquiria Domingos Leão Rego e o filósofo Alessandro Pinzani e que apurou os impactos do Bolsa Familia especialmente nas mulheres que são titulares do benefício.

Nas 150 entrevistas feitas nas regiões mais pobres do país entre 2006 e 2011, os pesquisadores constataram que o programa concedeu dignidade e liberdade de escolha a essas mulheres, muitas vezes chefes de suas residências. No entanto, apesar de rasgados elogios ao programa, ela, na matéria da revista, a socióloga enfoca a necessidade de implementar políticas educacionais que complementem ainda mais o programa, que hoje beneficiam quase 50 milhões de brasileiros. Também registre-se como contraponto a opinião na reportagem do sociólogo Antonio Mateus Soares, que considera o programa como substituto do coronelismo no nordeste e com um sistema de fiscalização capenga e que não funciona.

Programa de alcance social

Penso que o bolsa família, mesmo com suas controvérsias, é o programa de maior alcance social da história do país. Temos uma divida social com pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza e que por anos e anos eram ignorados tanto pelos dirigentes políticos como também pelas classes A,B e C. Ao contrário do que muitos dizem, não foram os partidos de esquerda que detonaram a luta de classes no Brasil. A pobreza tratou de fazer o serviço.

Também não dá para considerar como muleta o Bolsa Familia. Em primeiro lugar porque dados do governo federal demonstram que 930 mil pessoas cadastradas nos programas sociais do governo estão formados pelo Pronatec  (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego). É pouco perto dos 50 milhões de beneficiados pelo Bolsa Familia? Sim, é pouco, muito pouco. Mas o caminho está traçado. E deve ser seguido.

Mais: os opositores do Bolsa Familia afirmam em alto e bom som que o Bolsa Familia deveria acabar e dar lugar programas que gerassem empregos. Ok, tudo bem, mas fica a pergunta: a iniciativa privada teria capacidade para absorver de imediato, agora, já, os 15 milhões de titulares dos cartões do bolsa família? Teria capacidade de quitar todos os encargos trabalhistas gerados por essa demanda? E formação técnica desse pessoal, a iniciativa privada assumiria ao lado do governo?

Ou seja, infelizmente os críticos não entendem que o Bolsa Familia, é, antes de tudo um programa de transição para um estado de Bem Estar social. Que precisa ser aprimorado, é verdade, mas está longe de ser a causa de todos os males do Brasil.

Talvez o principal mal do país é que uma parte relevante da sociedade não se importa com os dramas sociais vividos por patrícios de sangue.  O desprezo pelo semelhante é muito mais grave que o dinheiro pago pelo Bolsa Familia.

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