As forças progressistas falam que ligam para o povo e desprezam a força mobilizadora do futebol. Como explicar?

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Jornalistas e forças progressistas reclamam nesta quarta-feira de um anúncio pago pelo Ministério do Esporte nos principais jornais do Brasil. O mote é a paz nos estádios. Concordo que o anúncio é um grande caça-níquel e pretende digamos alinhar os veículos de comunicação com as forças presentes no Palácio do Planalto. Agora, que tal mudarmos o disco? Como deixar de falar a negligência das forças de esquerda em relação a força mobilizadora do esporte, especialmente do futebol junto a população?

A verdade nua e crua é que nos últimos anos, tanto jornalistas como políticos e intelectuais progressistas, salvo as exceções de praxe (Juca Kfouri, José Trajano, Mauro Cézar Pereira, Flávio Gomes), o restante é incapaz de fazer asssociação entre problemas ocorridos nos bastidores e dentro do gramao para aquilo que sofremos no nosso dia a dia.

Dou exemplos cabais e práticos. Por quase um ano o movimento Bom Senso Futebol Clube chamou atenção para os problemas encarados pela categoria, o acúmulo de jogos de alguns atletas e a falta de trabalho para aqueles que só atuam nos campeonatos regionais, que terminam invariavelmente em maio. Pergunto: quais centrais sindicais (Cut, Força Sindical), partidos políticos e intelectuais de esquerda fizeram fileiras as demandas do Bom Senso? Quais blogs de esquerda abriram espaço para este pauta que aflige milhares de famílias? Esqueça aqueles que são milionários e com justiça vão fazer o seu pé de meia. Falo da maioria que recebe um salário mínimo e depois de largar a profissão, com 35 ou 36 anos, ainda precisa arranjar um profissão para se sustentar. Reforço a questão: os partidos e forças progressistas ligam para eles? Nem um pouco.

Durante o jogo, nem preciso descrever o show de horrores. Os estádios de futebol se constituem em palco para as mais diversas declarações de homofobia, machismo e misoginia. Mulheres são humilhadas e assediadas em um ambiente de predominância. Logo você vai sacar o argumento e enumerar as diversas campanhas da Fifa sobre o tema. Mas e os progressistas? E os movimentos de esquerda? Que mobilização realizam e fazem para modificar tal realidade? Você já foi em um estádio e já viu alguma campanha capitaneada por partidos, centrais sindicais, movimentos sociais e ong´s que trabalhem em cima de tema tão grave? Eu não vi. E tão cedo parece que não vai aparecer.

Perceba ainda o seguinte: uma das grandes reclamações de torcedores em geral é a disparidade de renda reinante no futebol brasileiro. O Flamengo leva R$ 190 milhões, o Corinthians R$ 170 milhões enquanto Ponte Preta e Chapecoense levam R$ 25 milhões. Ora, será que qualquer pessoa com pensamento minimamente progressista não deveria comandar uma gritaria para alterar este estado de coisas? Um dinheiro melhor distribuído não viabilizaria um campeonato mais equilibrado como também proporcionaria a geração de riqueza, dividendos e empregos em outras partes do Brasil, até fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Belo Horizonte-Porto Alegre? Pois é.

Existe um largo campo para ser trabalhado. Blogs progressistas ignoram a força e atração exercida pelo futebol. Mesmo com o Planalto ocupado por oito anos por uma pessoa genuinamente fanática por futebol.

Quem estuda minimamente a modalidade sabe que o futebol está longe de ser entretenimento. É cultura, identidade e um retrato do nosso país. E as forças de esquerda, orgulhosas de ostentarem o título de defesa de um país mais justo (o que é ótimo!) marcam um autêntico gol contra ao desprezarem tal quesito. Tomara que um dia acordem.

(Elias Aredes Junior)

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