A pureza ética no Brasil não deveria começar em Brasilia e sim nas arquibancadas…

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Queremos um país limpo. Desejamos o extermínio da corrupção e a prisão dos políticos malfeitores. Ficamos transtornados quando noticias de Brasília exibem conchavos, mutretas, leis injustas e medidas que afundam  nosso padrão moral. Foi por querer mudar esse cenário que saímos às ruas em junho do ano passado. Pensávamos que nossa missão estava cumprida. Engano. Pequenos fatos do dia a dia escancaram o déficit moral de toda a sociedade.

Sim, vou falar do futebol. Sempre ele. Dessa vez, algo simples: o São Paulo jogava neste domingo com o Ituano no Estádio do Morumbi e o Corinthians jogava contra o Penapolense na condição de visitante. A conta era sem enfeite: se o São Paulo cumprisse a sua parte e conquistasse os três pontos, as chances de o arquirrival disputar as quartas de final permaneceriam vivas até a última rodada.

Após 90 minutos, o Ituano venceu o tricolor paulista por 1 a 0. Não há como acusar jogadores ou integrantes da comissão técnica do São Paulo de corpo mole ou má vontade. Após sofrer o gol, Muricy Ramalho, profissional sério e ético ao extremo, usou todas as substituições que tinha direito para vencer a partida. Reclamou de jogadores, apontou defeitos e esbravejou pela falta de criatividade dos seus comandados.

Os jogadores cumpriram sua parte. Em lance típico de ansiedade, Paulo Henrique Ganso perdeu o tempo de bola, realizou uma entrada violenta e foi expulso. Convenhamos: não são atitudes de quem deseja perder o jogo.

O espetáculo deprimente veio nos minutos finais. Conduzido por  torcidas organizadas, boa parte do público presente gritava com entusiasmo a palavra “Eliminado”. Tudo direcionado ao Corinthians. Com o apito final do árbitro, a festa tímida virou carnaval nas arquibancadas. Veja, o torcedor são paulino comemorou uma derrota do seu próprio time. Motivo? Prejudicou o rival. Chegamos a conclusão de que a vitória geraria vaias ensurdecedoras.

Não me iludo. A torcida do São Paulo não é a única culpada. O Corinthiano tomaria tal postura em idêntica situação. Torcedores de Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Atlético Mineiro e das quatro potências cariocas não pensariam duas vezes em apoiar uma derrota no gramado para prejudicar o rival. Ao invés de pensar na vitória do seu time, o torcedor joga a ética as favas e comemora descaradamente quando o rival é prejudicado pelo revés do seu próprio time do coração.

Não há dor na consciência. Na segunda-feira, nós, torcedores e pobres mortais, esquecemos dos resultados inesperados, das comemorações ilícitas e voltamos a detonar os políticos, os partidos,o sistema podre de Brasília e os desvios éticos da nação. Somos juízes implacáveis e não nos consideramos parte do problema. Não vislumbramos que o problema moral e ético do Brasil não está apenas nos corredores frios dos salões da capital federal. É só dar alguns passos, entrarmos no quarto e olharmos no espelho que vislumbraremos um dos culpados. Pior: não temos vontade nenhuma de mudar a situação. Principalmente quando se trata da principal paixão do país.

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