A Olímpiada pertence a todos os brasileiros. Porque temos este direito

0
23

É madrugada de quarta-feira. Daqui a dois dias estarei em um ônibus, de madrugada, para chegar ao Rio de Janeiro. Sede das Olimpíadas. Jogos Olímpicos. O maior evento esportivo do planeta. Maior do que a Copa do Mundo. Uma fábrica de heróis e vilões em escala fenomenal. Tudo em 16 dias. 42 modalidades.

Olho os vídeos promocionais da NBC, a “patrocinadora da festa”. Pagou mais de 4 bilhões de reais para transmitir o evento.

Confiro os vídeos críticos de Bob Costa, o jornalista principal da emissora. Denuncia nossas mazelas. Fica espantado com a desorganização, com a poluição da Baía de Guanabara. Ele tem razão. Muita razão.

Duro admitir: temos nossa parcela de culpa. Olimpíada, calcada para ser um evento da paz, é sediada em um país dividido. Liberais versus conservadores. Petistas contra tucanos. Ricos contra pobres. Azul que persegue vermelho. O vermelho que abomina o azul. Às vezes, tudo isso em nome de Deus. No pódio do entendimento, da solidariedade, da tolerância e da convivência ninguém quer subir. Por vezes, somos medalha de lata.

Ingredientes suficientes para tirar minha alegria, satisfação e privilégio de vivenciar por dois dias um evento inesquecível.

Paro no tempo. Retrocedo para minha infância, adolescência. Começo a recordar as noites e madrugadas vividas para acompanhar as olimpíadas de Los Angeles, Seul, Barcelona, Atlanta. Naqueles tempos, inserido em uma família pobre e sem perspectivas, amante do esporte, meu coração pulsava e a mente ficava em estado de ebulição. “Será que um dia Deus me dará este privilégio?”; “Nunca vou entrar em um estádio olímpico ou uma arena para tal objetivo?”. Parecia que os sonhos eram desfrutados por alguns, nunca por todos.

Naqueles tempos, restava a garotada do Jardim Amazonas, Vila Georgina, Vila Marieta e adjacências improvisar na rua , na piscina pública ou no chão de terra batida as peripécias de Carl Lewis, Ricardo Prado, Aurélio Miguel, Gustavo Borges. Nós éramos muitos. Indignados por saber que o Brasil pertencia a poucos.

Hoje, eu sei que se encontrar no Rio de Janeiro o negro, o índio, operário, o excluído sentado naquelas arenas ou nas ruas para presenciar uma prova, eu vou me emocionar. Talvez até chore. Por saber que assim como eu, brasileiros de todos os credos e raças vamos de um jeito ou de outro sentir, viver, torcer e chorar em algo que antes parecia distante, longínquo, impossivel de chegar. Que não será privilégio apenas de uma parcela privilegiada da população.

Corrupção? Que tudo seja apurado. Que todos sejam presos, mofem na cadeia. Falta escola? Saúde? Habitação? Concordo. Vivi e ouço histórias de gente que necessita de um país estruturado, decente, digno. Os 40 bilhões de reais gastos na Olímpiada poderiam fazer diferença em outros setores? Sim. Só que algumas vezes, todos estes argumentos (justos!) eu ouvia de gente que tempos depois anunciava que estava indo para a Copa do Mundo da Coréia e do Japão ou na Olímpíada de Atenas. Enquanto isso, o povo que sofria não tinha sequer a solidariedade destes “denunciantes” para melhorar de modo concreto o pais.

Fui e continue indiretamente sendo uma dessas vítimas. De uma educação sucateada, de uma saúde aos pandarecos e de falta de habitação e transporte. Só que cansei também em ficar fora da festa. Cansei de receber cartões postais daqueles que degustavam as delicias dos eventos esportivos enquanto eu e milhares ficavam com as mazelas do Brasil. Eu quero, desejo, luto e reivindico por um país melhor. Para todos. Mas eu também desfrutar daquilo que é bom. Não quero viver pela metade. Pode ser um fracasso? Problemas na organização? Sim, é verdade. Imediatamente, o que presenciarei é aquilo que o brasileiro tem de melhor, a sua solidariedade, criatividade e aconchego.

Não adianta: a Olímpiada do Rio de Janeiro não vai pertencer a um grupo seleto. Não ficará apenas com o topo da pirâmide, acostumado a considerar certos espaços como os de sua propriedade e controle. O mundo mudou. O país mudou. Oro e torço para encontrar um Rio de Janeiro colorido e multifacetado, na zona sul e no subúrbio. Que todos estejam com a guarda baixa e celebrem com intensidade a beleza e a magnitude do esporte. A olimpíada é de todos nós. Brasileiros. Por inteiro. Por 16 dias vamos ocupar o pódio. Por completo. Merecemos.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here