Entrevista de Dilma Roussef na TV Brasil: poderia ser melhor. Muito melhor

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Entrevistas podem ser boas. Ás vezes ruins. Em determinadas situações catastróficas. Nem por isso o profissional deve ser malhado ou criticado em demasia. Luis Nassif já está na história do Jornalismo brasileiro. É revolucionário tanto no setor econômico como na mídia digital. Mas a sua entrevista com Dilma Roussef veiculada pela TV Brasil não rendeu o esperado, apesar do lançamento da bandeira do plebiscito. Quando critico a entrevista refiro-me a qualidade e não ao feito em si. Afinal, entrevistar uma presidente afastada é algo a ser elogiado. O que vem da conversa é outra história.

A entrevista é ruim porque assuntos essenciais não foram tratados.

Senão vejamos: vivemos um governo interino comandado por Michel Temer. Para alguns, um desastre. Para outros, um sopro de esperança. Também existe o fato é que muitas pessoas não compreenderam a questão do impeachment. Focado nas classes C, D e E, o Datapopular já tinha detectado dias antes da votação na Câmara dos Deputados que esse contingente da população considera o episódio nada mais, nada menos do que uma briga da elite. Ou seja, não tem relação com sua vida. Tem, mas a população não percebe.

Mais: 71% acreditavam que os políticos agiam por interesses próprios e 92% cravam e apostam no conceito que “todo político e ladrão”. Pegue tais dados e junte com os dados da recente pesquisa da CNT/MMDA que afirma que 62,4% dos entrevistados consideram correta a decisão de afastar a presidenta da República e que 61,5% consideram o processo de impechment.

Um terço da sociedade está com Dilma. Como avançar?

Mais de um terço da população brasileira acredita no discurso de Dilma de que é golpe. Só que a atual presidenta afastada precisa da legitimidade das ruas para pressionar senadores a reverterem a sua cassação no julgamento. E qual o caminho? Linguagem popular, simples, indo direto no ponto, sem medo até de assumir erros e equívocos.

Eduardo Cunha é o vilão. Mas por que não é derrotado?

Primeiro, Eduardo Cunha. Não adianta Dilma Roussef dizer que Eduardo Cunha é vilão, cometeu barbaridades contra ela e tem interesses próprios. Ora, isso todos sabem. O que ela precisava explicar era porque um deputado do baixo claro e evangélico foi capaz de ganhar tanta capilaridade.

Dizer que o espectro de centro foi para direita também é bonito para convencer os convertidos, mas não conta toda a história. Seria o momento de admitir que errou. Tomou um caminho equivocado ao bancar a candidatura de Arlindo Chinaglia, que não goza de popularidade dentro da casa.

Ao mesmo tempo, Dilma Roussef explica que Eduardo Cunha tem pauta própria. Concordamos. Mas por que o PT não trabalhou de modo efetivo para encontrar uma candidatura dentro da própria bancada do PMDB ou de partidos aliados para atrapalhar a candidatura de Eduardo Cunha? Pois é.

Erros na articulação política

Dilma Roussef deveria dizer que seu grupo político errou por anos e anos ao eleger como interlocutores no congresso em determinado momento figuras intransigentes como Aloizio Mercadante; em outros, pessoas sem autonomia como Ideli Salvatti.

Não pode ser explicito? Ok, mas um pouco de humildade não faz mal a ninguém. Bancar a heroína pode agradar a quem já aprecia o personagem não quebra a resistência de quem não gosta da protagonista agora no papel de coadjuvante. Se existe uma crise política, não é só por causa das maldades do outro lado e sim por causa de erros cometidos pelo seu grupo político.

O erro com Joaquim Levy

Nassif errou também ao não aprofundar uma análise sobre a gestão de Joaquim Levy, que foi o estopim para a insatisfação popular e da queda de popularidade da presidenta. Dilma Roussef pode ter boas intenções, ser honesta e explicar mil vezes que foi acometida de uma crise econômica que não estava no horizonte. Mas o fato inequívoco é que sua campanha foi claramente progressista em 2014. Quando tomou posse, a gestão ganhou um contorno conservador que muitos eleitores se sentiram enganados. E por que? Ninguém sabe. Suas explicações para as mudanças no Fies são coerentes, mas o fato é que estudantes deixaram de participar do programa. E agora? Qual a saída para quem não está assistido. E até hoje Dilma Roussef, seja por falta de comunicação ou péssimo assessoramento não conseguiu desfazer esta imagem de propaganda enganosa. E perdeu outra oportunidade.

Desemprego em segundo plano. Por que?

A entrevista também perdeu a chance de aprofundar em um tema sensível a população: o desemprego. Na pesquisa da CNT, 59,8% dos entrevistados temem ficar desempregados por causa da crise. É um problema palpável e concreto. Dias atrás, o Brasil tomou conhecimento de que 11 milhões de pessoas estão desempregadas. Imediatamente, o presidente interino Michel Temer quis tirar tal fator de suas costas. Ou seja, colocou no colo de Dilma. E ae? Ele tem razão? Ela acha que esses números correspondem a realidade? Vai melhorar? Vai piorar? O que dá para fazer? Faltou ser mais específico nesta questão. Você pode alegar: ah, mas ela está afastada. Mas ela foi acusada de ser a responsável pelos números. Vai ficar assim? Não deveria.

Dilma está sitiada?

Senadores passam por revista para terem acesso ao Palácio da Alvorada; Problemas no fornecimento da verba para a aquisição de alimentos. Corte do transporte da FAB para deslocamentos dentro do Brasil? Reportagens e posts nas redes sociais focados em denunciar que a presidente está sitiada. O que ela pensa disso? É verdade? É mentira. Pois é. Uma hora de entrevista e ficamos sem a resposta clara e cristalina.

Relação com os movimentos sociais

É inegável que Dilma Roussef recebe um apoio valoroso de movimentos sociais. Gente que foi para rua defender o seu mandato. Só que este contingente da população foi solenemente desprezado pela Presidência da República no exercício do cargo. Pouquissimas audiências. Pouca ou quase nenhuma interlocução. Pergunta que não quer calar: porque tal fato aconteceu? O que motivou esta mudança de postura? Obedecer a liturgia do cargo não cola. Se tal regra fosse válida, o então presidente Lula não ostentaria boné do MST em diversas ocasiões de 2003 a 2010.

Olimpíada sumiu?

O Brasil está prestes a receber o maior evento esportivo do planeta. Os governos do PT foram responsáveis diretos por viabilizar a empreitada. Dilma comandou os preparativos como ministra chefe da Casa Civil e depois como presidenta. Um evento que pode chegar ao patamar de gastos R$ 40 bilhões. Dilma Roussef recebeu a tocha olímpica e agora assiste Michel Temer a comandar o processo.

O que ela acha? Até que ponto o processo impeachment pode contaminar a chegada de turistas e investidores? O governo estadual e municipal do Rio de Janeiro cumpriram com sua missão? O que ela acha da previsão do Senado julgá-la justamente na época da olimpíada. Pior: ela comentou sobre a política internacional do governo interino e não fez a interligação de como esta competição tem um papel fundamental na geopolítica. Vacilo feio.

Pontos positivos

Nem tudo foi perdido. Dilma Roussef foi bem nas criticas a politica externa do presidente interino. Criticou com comedimento e inteligência a postura do ex-presidente Fernando Henrique. Foi inteligente ao recapitular as estratégias adotadas pela oposição desde sua vitória. Na melhor parte da conversa, Dilma Roussef deixou a porta aberta para chamar um plebiscito para verificar se a população aprova ou não a convocação de novas eleições presidenciais.

Dilma Roussef fez bem em reforçar que foi vitima de um processo de chantagem por parte de Eduardo Cunha. Sem contar sua cautela ao comentar sobre a operação Lava Jato e até ao criticar a mídia em todo o processo de investigação. Também ensaiou uma mea-culpa na sua relação com o empresariado.

São pontos que merecem elogios, mas muito pouco diante da chance oferecida e desperdiçada. Pela entrevistada e pelo entrevistador.

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